16 de dez de 2008

Minhas duas almas

Falar sozinha é uma das minhas loucuras em uma lista interminável de bizarrices pessoais. Eu nunca achei estranho, mas as pessoas acham. Não chega a ser esquizofrenia, eu já tive o cuidado de perguntar para os vários terapeutas, psiquiatras psicólogos que frequentei nessa vida "E aí, sou doida?" "Não Sarah, pessoas doidas nunca acham que estão doidas".

Mas como funciona a arte de falar com si mesmo? Depende de cada um. Eu me faço perguntas em voz alta e respondo. Assim:

"Você comprou sabonete?"
"Comprei, tá aqui ó"
E levanto o sabonete pra mim mesma.

Eu falo com a televisão e meu outro eu faz um comentário relevante:

"Que propaganda idiota!"
"E tem gente que recebe dinheiro pra escrever isso"
"Pois é, mais dinheiro do que eu ganho. E eu podia fazer melhor."
"Tu é otária"
"Sou mesmo. E vou acender mais um cigarro"
"É, fuma e continua a ser otária E POBRE"

Discussões e auto-ofensas:

"Eu nunca gostei de calcinha bege!"
"Mas tem várias na gaveta!"
"É verdade! Eu não sei como elas aparecem."
"Mistério..."
"Saca aqueles pacotes - leve três pague uma - deve ser de onde elas vêm. Uma bege, uma branca e uma preta"
"Mas eu compro essas porcarias sem olhar? Bi-zar-ro"
"Você é bizarra minha filha"
"Eu entendo essa parte, estou discutindo minhas calcinhas comigo"

O melhor é que eu falo sozinha quando não estou sozinha.

"Não funciona, vou trocar esse shampoo"
Namorado: "Sarah, o que você disse?"
"Nada , tô falando sozinha"
Namorado: "Mas você não está sozinha"
"Não me interrompa."

"Arrá! Achei você idiota!"
Irmão: "Quem é idiota?"
"shhh, shhh... Que zona!"
Irmão: "Você está no telefone Sarah?"
"Não!"
Irmão: "Mas tá falando com quem?"
"Não sei direito"

Uma lenda ucraniana diz que pessoas que falam sozinhas têm duas almas. Quando a pessoa morrer, uma delas fica para sempre vagando pela Terra. O que seria muito triste se fosse verdade: eu ficaria sozinha eternamente.