23 de jun de 2005

HOLY JESUS!


HOLY JESUS!, originally uploaded by Sarah Groove.

Outro dia lembrei de uma coisa que eu fiz quando era criança. Antes de qualquer coisa devo lembrar que minha "mamã", hipponga e como ela só, não me criou sob nenhuma religião, sob a alegação de que eu, quando esperta o suficiente, deveria escolher a que mais me apetecesse. Como nunca fiquei esperta, até hoje não tenho religião.

Voltando à minha infância pagã, eu tinha uma avó muito da beata, que insistia em me levar à missa na catedral aos domingos. Minha mãe deixava por respeito à minha vovozinha (que Deus a tenha). Então, eu fiquei sabendo que existia um Deus, que abençoava toda aquela água que colocavam nas pias altas. Água que eu insistia em pegar e jogar na cara do meu irmão, e minha vovó dizia que era pecado. "Pecado nada! É água!" E minha avó me disse que Deus abençoava a água. Eu imaginei que Deus ficava lá no céu jogando algum pó mágico em caixas d'água junto com as nuvens e os Ursinhos Carinhosos (oras, eles moravam no céu, tinham até o nuvemóvel. Eu tinha o meu fabricada pela estrela em meados dos anos 80) .

Então, eu sabendo que existia um sujeito lá nas nuvens que olhava pra tudo o que a gente fazia. E isso não era legal. Eu não queria ninguém olhando pra mim. Eu achava uma puta sacanagem. Eu então, queria inventar uma lei, alguma coisa que impedisse daquele senhor que enchia a água de benção e coisa e tal, de ficar me olhando. O que minha mente de 7 anos resolveu criar? Uma máquina? Uma comida que me fizesse invisível aos olhos dele? Coloquei meus neurônios frescos para funcionar. Eis que tive uma fabulosa idéia:

Primeiramente fui até minha pasta de papéis de carta e peguei um papel rosa, enfeitado com desenhos de nuvens, e do Ursinho Carinhoso mais gay de todos: O rosa com um arco íris na barriga. Escrevi então um contrato/carta:

"Senhor Deus,

Escrevo essa carta para dizer que não quero o senhor olhando pra mim. É proibido! Não pode olhar! Só poderá olhar de novo se um dia eu escrever uma cartinha dizendo que pode. Minha vó Adelia gosta muito do senhor, por favor, pode ficar olhando pra ela. Um grande beijo!

Sarah."

E levei no domingo na missa. Eu não sabia como entregar a carta pra Deus. Não quis perguntar pra minha vó, senão ela me acusava de pecado e não ia mais me dar doce de banana. Saí sorrateira de perto dela e fui pra um lugar isolado. Não sei de onde veio a inspiração, mas ao ver um monte de velas, pensei que se eu incendiasse a carta a fumaça dela iria por céu e Deus ia ler, fazendo alguma mágica (claro, Deus pra mim era um mágico, eu até confundia ele com o Marilin do Rei Arthur).

E eu coloquei fogo na cartinha, e juntei as cinzas. Coloquei todo aquele pó de papel de carta incendiado aos pés da Virgem Maria. Pensei "ah nós meninas nos entendemos né Dona Virgem?". E fui contente embora pra casa, aliviada porque tinha me livrado do olhar divino. E aí em frente, podia fazer maldades à vontade.

Até hoje não escrevi de volta dizendo que ele podia olhar. Quem sabe um dia. Preciso encontrar papéis de carta com ursinhos gays pra me comunicar com Deus.