29 de jul de 2005

(a foto do leitão dourado e seu algoz é de Alice Shintani)

My name is pig, and I am funky

Hábitos alimentares saudáveis. Pedaços de uma esponja de soja que os naturebas insistem em chamar de "carne". Barras de cereal. Yogurte desnatado. Franguinho grelhado. As pessoas gostam mesmo de comer essas coisas? A comida hoje é assassina. Sim, um pedaço inocente de torresminho com limão no buteco da esquina pode te matar. O sal pode te matar. Sim, aquele pozinho branco que vem do mar, vai explodir sua pressão arterial e te mandar pro além.

Chega aterrorizado à uma churrascaria, tremedeira, mãos frias. O cardápio: Oh tantas formas de morrer separadas em espetos sanguinolentos e placas de gordura. Seus olhos desviam de tanto terror, olham para o bufê de saladas, oh amiga rúcula, salve minha vida! Um pouquinho de beterraba, mais alface, alface, agrião com alface. AHHHHH A MAIONESEEEEE! Desvie, desvie da maionese, peloamordeseusfilhinhos não olhe pra maionese! Ahhh, a fila andou. Hmmm palmito. Um só. UM SÓ! Hmmm...oh oh....Queijos! Não, não não, cadê o queijo minas frescal, porque raios eles insistem em colocar esses queijos italianos amarelos e assassinos? Querem me matar!

Porra senta na mesa logo. Quanto mais rápido você sair daqui, melhor. Sim, alface...com limão. Sem sal, sem óleo. O quê? Você acha que eu sou suicida? Tira esse espeto de maminha da minha cara filho da puta! Hmm, alface...cenourinha...oh..lá vem a picanha no alho. O cheiro...o cheiro da morte...Por favor corte uma fatia, mas do lado de cá, cerca de 5 centímetros...Isso, longe da gordura hein rapaz! Hmmm...deu pra sentir o gostinho da carne...Se eu mastigar lentamente, posso me ver comendo uma fatia decente de pican...Não, não pense assim! Vou pegar grão de bico ali e já volto! Mas que porra, os caras colocam até vatapá nesse bufê. Tem lasanha! Churrascaria na minha época era só carne. Essa couve-flor tá bonita...Pronto de volta à mesa.

Em determinado momento as portas da cozinha se abrem. Um carrinho celestial passeia por dentre as mesas (trilha oficial: O Fortuna - Carmina Burana).

(O Fortuna,velut luna statu variabilis,semper crescisaut decrescis;) Ele passa na mesa ao lado.

(vita destabilis nunc obduratet tunc curat ludo mentis aciem) O homem gordo pega uma fatia, brilhante, aromática...suínamente perfeita

(egestatem potestatem dissolvit ut glaciem.) A pururuca emite um som divino...

(Sors immanis et inanis, rota tu volubilis, obumbrata et velata michi quoque niteris) O garçom olha pra você.

(nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris) Você finge que não viu, mas não desgruda os olhos daquele porquinho dourado

(Sors salutiset virtutis michi nunc contraria, est affectuset defectus semper in angaria) O porquinho dourado te manda uma piscadela

(Hac in horasine mora corde pulsum tangite; quod per sortem sternit fortem, mecum omnes plangite!) Uma gota de baba escorre pelo canto de sua boca

(Fortune plango vulnera stillantibus ocellis, quod sua michi munera subtrahit rebellis) O garçom leva o carrinho para sua mesa. Lentamente ele vem em sua direção, sorrindo.

(Verum est, quod legitur, fronte capillata, sed plerum que sequitur occasio calvata.) Você sorri também. O porquinho te manda um sorriso maroto com aqueles dentinhos carbonizados.

(In fortune solios ederam elatus, prosperitatis varioflore coronatus; quicquid enim florui flexi et beatus, nunc a summo corrui gloria privatus.) Você escolhe a fatia das costas do porco. Uma placa gigante de pururca é colocada em seu prato...seus olhos lacrimejam de emoção!

(Fortune rota volvitur: descendo minoratus; alter in altum tollitur; nimis exaltat usrex sedet in vertice-caveat ruinam! nam sub axe legimus Hecubam reginam) Depois de se fartar com o suíno crocante, você vira uma lata de coca-cola na goela em 18 segundos.

Arroto.

Fechem as cortinas.