20 de abr de 2007

Visão além do alcance.

Um conto de Natal fora de época.

No Natal de 1989, me foi revelado o segredo da vida. Uma coisa singela, que me fez questionar a própria verve da existência humana.

Minha família, naquela época, reunia-se na casa de minha tia para a ceia. Eu e meu irmão dormíamos na casa dela porque tínhamos primos de idades compatíveis, e a criançada mal via a hora de abrir os presentes na manhã seguinte.

Eu tenho um primo, gordo, que na infância era um gordinho invocado. Saca o gordinho invocado, nervosinho, que bufa, faz bico, brigão, chato e pentelho? Bem esse era o Gú.

Hoje ele é gerente de banco. Saca o gerente de banco gordinho? É ele.

O moleque era um chato, adorava esnobar eu e o meu irmão com os presentes dele. Tudo tinha que ser maior, melhor, mais foda, mais legal, consequentemente, mais caro. Todo Natal ele esnobava a gente. "Eii, ganhei um Maximus, hahahaha" E meu irmão lá, com um carrinho de controle remoto dourado e paraguayo, com cara de cachorro perdido. Mas sabe, meu irmão era um menino paciente. E de certa forma não queria arranjar confusão, porque, veja bem, apanhar de um gordinho invocado não é legal.

E ele se segurava, engolia seco, enquanto o gordinho se esnobava com o Maximus vermelho.

Pois foi no Natal fatídico de 1989 que o meu mundo mudou.

Era época do Thundercats, os felinos mutantes usando collant e brigando com uma múmia em forma decadente. Os meninos queriam a espada com o olho de Thundera. Era o presente oficial de vários molequinhos naquele ano.

Na manhã de Natal, o gordinho acordou, comeu um panetone inteiro e foi abrir os presentes, eufórico. Meu irmão foi calmo, sorrateiro, embaixo da árvore. Eu e minha prima, ganhamos pôneis de plástico, e ficamos lá, penteando os cavalos cor-de-rosa. Meu primo abriu o pacote dele. Era a espada oficial dos Thundercats, o olho de Thundera brilhava de verdade, ela esticava, cheia de traquitanas.

Meu irmão pobrezinho, ao abrir o pacote se deparou com a versão pobre da espada felina. De plástico, durona. O olho de Thundera era um adesivo torto. O gordinho ria que se matava, ficava chacolahando aquela coisa no ar, acendia a luz, repetia "Me dê a visão além do alcance!". Tava todo, todo o rapazinho obeso, pulando no sofá. Meu irmão ficou olhando a espada dele, embanhada, chocha. Aí o gordinho desafiou o coitado para um duelo no quintal.

Obviamente meu irmão ficou sem graça, lá vinha aquele folgado esnobar ele de novo. Mas ele foi, porque ele até pode ser pobre, mas covarde ele não é.

Aí os dois se encararam no jardim. O gordinho acendeu a espada três vezes, girou no ar, fez pose de ninja, falou que meu irmão parecia o Snarf. Meu irmão fechou os olhos, maldita humilhação, levantou a espada no ar. O gordo veio correndo, em câmera lenta, vinha bufando, tentando acertar meu irmão. E lá, com a espada tosca erguida, humilhado ele rebateu o golpe.

A espada do gordinho se espatifou em mil pedaços. Voou plástico, pilha, olho de Thundera, fios pra tudo que era lado. Estilhaçada, destruída.

O gordo ficou perdido, olhando o cotoco de plástico e fios na mão dele.

Meu irmão ergueu a espada, de peito inflado, sorridente, olhou para o céu e mandou um:

-THUNDERCATS, HÓOOOOOOOOOOUUUUUU!

Foi foda.