27 de jul de 2007

Público cativo


Existe um sebo neste país. Um sebo que se concentra em cantos empoeirados, em mesas de fórmica rachadas, em computadores ultrapassados, em armários cheios de arquivos amarelados. Que fica grosso e escuro feito pasta de betume. É podre, é ultrapassado, inchado. Creio estar prestes a explodir.

Chama-se serviço público.

Eu trabalhei em uma instituição pública durante alguns meses. Era estagiária na Secretaria da Cultura de minha cidade, na área de assessoria de imprensa, e posso afirmar que o que vi ali foi algo que nunca imaginei. Tanta lentidão, tanta falta de boa vontade, tanta indiferença.

Sou filha de empresários. Cresci observando meus pais trabalharem honestamente, arduamente, pagando impostos e funcionários em dia, dentro de todas as conformidades que as leis impõem. Vi dentro da agência de meus pais, pessoas trabalharem, crescerem profissionalmente e fazerem o capital girar. Pra mim, quem segura a economia deste país são essas pessoas, envolvidas diretamente com o trabalho e que sabem que só assim é possível viver uma vida decente e colaborar para uma sociedade decente. Trabalhar, sem vagabundagem, sem preguiça, sem má vontade. Trabalhar por honra mesmo. E se tem uma coisa que eu não suporto nesse mundo é vagabundo aproveitador.

Voltando à minha época dentro do funcionalismo público, digo que foi ali que comecei a moldar meu caráter político. Como toda (o) estudante de jornalismo em começo de carreira, eu tinha ideais. Pensei que dentro da Secretaria da Cultura eu poderia fazer algo útil para as pessoas. Levar literatura, música, cinema, artes plásticas para todos. Me sentia importante ali. Pelo menos no primeiro dia de trabalho, cheguei com essa idéia. Eu tinha dezoito anos e aprendi como este país funciona atrás de fachadas mofadas.

Lá dentro, um bando de pessoas inúteis, fazendo coisas inúteis. Pessoas, que por nunca correrem o risco de perder seus empregos, faziam seus trabalhos como se estivessem sentados em um vaso sanitário. Nas salas, mulheres gordas e tristes se entupiam de pão com margarina, tomando café e comentando a novela. Homens que nunca estavam lá, que chegavam onze da amanhã e saíam uma da tarde para não voltar mais. Meu chefe (eu tive três diferentes em oito meses) baixava pornografia o dia todo, eu fazia todo o trabalho do maldito punheteiro. E mandava para o superior dele como se o inútil tivesse trabalhado. Eu sentia raiva, vergonha. Nada acontecia, nenhum evento era programado com cuidado, tudo era feito na última hora. Se eu precisasse de dez folhas de papel eu tinha que preencher um protocolo. Para xerocar o clipping dos jornais, eu devia preencher outro. Eu perdia tempo fazendo isso, mas lá dentro, um dos funcionários falsificava documentos sem preencher a cartela de xerox como se isso fosse normal.Como se fosse direito dele. Via as faxineiras roubarem café e açúcar do depósito. Via coisas velhas e estragadas em outro lugar. Pessoas reclamando de seus salários, enquanto coçavam a própria bunda. A única pessoa que eu conheci ali que trabalhava de verdade era um senhor que cuidava do jardim. Ele estava lá todos os dias às sete da manhã, varrendo, limpando, podando. Não parava um minuto. Mesmo sendo de idade se oferecia para qualquer serviço. Só ele. Em universo de setenta funcionários públicos.

Hoje, quando eu entro em prédios públicos, eu vejo este sebo. Veja espalhado na cara das pessoas, nas mesas, nas cadeiras. Escorre.

Quando se vê isso, é quando se entende que um país está falido e podre por dentro. Todo o sistema público está assim. É este comportamento que se vê na política. Uma falta de vontade enorme de levantar a bunda da cadeira e fazer alguma coisa que preste. É mais fácil comer pão com margarina e roubar pó de café, nas devidas proporções. Entenda: todo o dinheiro que eu e você pagamos em impostos vai para esse tipo de gente.

Quando eu ouço alguém reclamar de privatizações eu fecho os olhos e lembro da minha sala cheia de sebo na Secretaria da Cultura. E tenho uma vontade enorme de mandar o reclamante para a casa do caralho.