19 de out de 2008

Sobre lhamas e bebês mutantes

Estou bêbada há 4 dias. Esqueço que em minha cidade natal a única diversão possível é ficar bebendo (muita) cerveja de manhã, à tarde, à noite, de madrugada e ao amanhecer. Hoje vi o sol nascer sentada em uma mesa de bar, bebendo. O lugar, feio e imundo, estava lotado de outros bêbados, em sua maioria homens com mais de 50 anos. Eu fazia um esforço enorme para manter minha cabeça em pé, mas não sentia mais minhas mãos, que não obedeciam direito minhas ordens e insistiam em tremer. Estava bebendo desde as 11 da manhã. Comecei a olhar para o copo sentindo um certo asco de dar outro gole. Meu estômago revirava ácido feito máquina de lavar. Cheguei em casa e tive sonhos intermináveis onde horríveis bebês peludos e com cabeças enormes, falavam arrotando.

Quando acordei com a língua completamente dormente, fui me escorando pelas paredes com uma tremedeira sem fim. Cheguei ao chuveiro onde fiquei por mais de meia hora sem me mexer, embaixo d'água, tentando lembrar o que diabos eu fiz no dia anterior.

Eu me lembro de cenas onde eu falava alguma merda muito grande em voz alta, chacoalhando meus braços bêbados pelo ar. E acho que ofendi pessoas indireta e diretamente. E existe o famoso GAP da memória. Ah, o gap, a falha, aquele exato período de tempo que você não se lembra de mais nada. O meu aconteceu no instante que subia o elevador, chegando de uma bebedeira prévia e me preparando para outra. Eu lembro de entrar pela porta e minha mãe me dar uma lhama. Você leu direito, uma lhama. Eu não sabia se estava alucinando. É aí que vem o gap.

Quando a memória voltou já estava sentada na mesa do bar imundo, de vestido e salto alto. Eram 4 da manhã, meu amigo estava contando segredos de sua vida amorosa e eu só conseguia pensar em manter minha cabeça ereta e segurar o conteúdo do meu estômago em seu devido lugar.

Agora estava passando pela sala e vi, em cima da mesa de jantar: uma lhama.


E eu juro que não vou beber nunca mais.
Ou pelo menos até as 17h de hoje.