17 de abr de 2009

Propaganda investigativa.

Estou na sala vendo TV. Ouço um barulho na porta de entrada. Quando me levanto surge no corredor uma equipe inteira de filmagem. A repórter, de jaleco branco, enfia um microfone em minha cara. Antes que eu possa dizer qualquer coisa ela pergunta, falando rapidamente:

- Que tipo de alvejante você usa em suas roupas?

Confusa, eu não sei o que pensar, as luzes me deixam tonta, a câmera focada em mim:

- Que porcaria é essa aqui na minha sala? Como vocês entraram?

- Você sabia que a maioria dos alvejantes destrói as fibras...

- Que alvejante? SAI DAQUI AGORA FILHA!

Eis que a repórter pega uma taça de vinho e joga em minha camiseta.

- MAS QUE PORRA? Você fumou crack? Vou chamar a políc...

- Com o novo alvejante VIVAZ você elimina manchas e ainda preserva o tecido!

Eu fedia vinho tinto vagabundo. A repórter começou a preparar um balde com água bem ao lado da poltrona sorrindo para a câmera afirmando vorazmente:

- Prático! Veja como dissolve fácil!

Eu olho para os lados, buscando o telefone ou algum objeto contundente para bater naquela repórter imbecil e quem sabe fugir pela rua, buscar ajuda.

A repórter se vira para mim. Ordena:

- Sua camiseta por favor.

- Moça, me explica o que é isso tudo? Onde... Porque...

- Vamos eliminar essa mancha em apenas alguns segundos. Aí nós vamos embora.

Ela me olhou com firmeza. Acuada, tirei a camiseta, cobrindo meu corpo com os braços, entreguei a peça encharcada de vinho, tremendo.

A repórter, com seu jaleco alvo e brilhante, colocou a camiseta dentro do balde transparente. Eu observei a camiseta boiar e efervescer, com uma imensa vontade de chorar.

Ela tirou a camisa, levantou para a câmera.

- Veja a eficácia de VIVAZ bem em frente aos seus olhos!

A câmera foca em mim. Eu sorrio nervosamente, faço um sinal positivo.

Ela me entrega a camiseta pingando. Pega o balde e sai com toda a equipe por onde entrou. Eu me sento, semi desnuda, segurando a camiseta molhada. Eu não sei que acabou de acontecer.

No dia seguinte, acordo pensando que não é bom comer mortadela antes de dormir porque dá pesadelo. Entrei no banheiro. Asim que abaixo as calças, uma equipe de filmagem abre a porta do recinto, de solavanco. Luzes cegantes, o microfone em minha cara. Agora é um homem com o cabelo cheio de gel me pergunta:

- O que você faz para eliminar os maus odores do seu banheiro?

Antes que eu possa fazer qualquer coisa, ele espirra um líquido com cheiro de lavanda em cima de mim. Eu estou com as calças abaixadas. E cheirando a lavanda.

Malditas propagandas investigativas.