22 de fev de 2006

Zip Drive

Às vezes me pego lembrando de alguma coisa que aconteceu há muito tempo. Quando digo muito tempo, quero dizer quando eu tinha uns quatro ou cinco anos, ou seja, há vinte anos atrás. O engraçado é que são coisas meio sem graça, nada importantes.

Drive 1 - Estou deitada, no chão, em cima de uma almofada vermelha de crochê (minha avó tinha mania de fazer crochê e minha mãe entupia a casa com colchas , toalhinhas, barrados...). Começo a escorregar com a almofada pelo corredor, pra cima e para baixo, olhando para o teto, usando meus pés como impulso. Imagino que sou um polvo no fundo do mar e que o teto, é na realidade a superfície onde vivem as pessoas. Eu estou debaixo d'água, com baleias azuis, peixes e estrelas do mar. Até bater a cabeça na porta. Aí eu volto pro mundo real. E chamo a empregada: "Buáaaaa! Tá com galo?"

Drive 2 - Me lembro de acordar domingo bem cedo, umas seis da manhã. Minha mãe, natureba, não deixava a gente tomar refrigerante quando quiséssemos. Tinha hora pra isso. Então, se eu acordasse às seis da manhã em um domingo e invadisse a geladeira, poderia beber um pouquinho sem levar bronca de ninguém. Lá fui eu sorrateira pelo corredor, me esgueirando atrás do armário. Ao chegar na geladeira, o coração batia rápido. Que gostoso, vou tomar guaraná! Abri a porta devagarzinho. Lá estava a garrafa verde e reluzente. Era só pegar. Mas, antigamente, as garrafas eram de vidro. E com a minha força de 4 anos eu não consegui levantar a garrafa. Ela mal se mexia. Voltei pra cama frustrada, sem guaraná.

Drive 3 - Eu estava no clube, sentada no parquinho. Comecei a fazer uma montanha de areia. Aí pensei que se eu cavasse um buraco bem fundo, eu encontraria um tesouro. Não qualquer tesouro, mas um tesouro digno de um clube, com maiôs, bóias e bolsas plásticas. Tudo antigo, quem sabe da época das pirâmides! Como seriam as bóias daquela época? Fiquei empolgada e continuei cavando. Fiz um buracão enorme (okay, na época devia ter 30cm de profundidade, mas eu media um metro, então ERA ENORME!) Mas formigas atacaram meu pé. E doía, doía muito. Saí correndo para minha mãe, que me levou na enfermaria. Na correria deixei meu chinelinho no parquinho. Queria buscar. Mas quando voltei não estava mais lá. Dei um escândalo e fiz minha mãe procurar. Não adiantava, tinha sumido. Depois, todas as vezes que voltei ao clube eu cavava um buraco imaginando que meu chinelo estaria lá, enterrado, junto com os tesouros de um clube bizantino.