18 de mai de 2006

Nadya Breaka

Vodka, do slavo, voda, água.
Whisky, em gaélico uisge, significa "água da vida".
Que mania de chamar cachaça brava de água. Imagino os povos lá, na neve há milhares de anos atrás "Eitcha vamo lá tomá uma aguinha!".

A vodka é a mais maldita das bebidas, depois do absinto. Absinto, eu sempre digo, é um portal líquido para outra dimensão.

Voltando à água russa: Maldita seja. Não bebo mais esta porcaria. Seja Stolichnaya, Absolut, Smirnoff, Polanski. Não quero mais saber.Não é nem pela ressaca. É porque eu fico decadente mesmo. E a amnésia é a pior de todas. A sensação de que, se a noite passada eu tivesse rolado nua em cima de ostras abertas e depois cantado "Que será, será" de trás pra frente para uma platéia de lêmures, e ainda ser incapaz de recordar um segundo sequer do fato, é perigosa.

Ontem à noite estava ouvindo Judy Garland. A janela aberta, o ventinho gelado, meu cigarrinho aceso. Enquanto eu cantarolava "Just me and my Shadow", resolvi que era um "drink time". A hora certa pra fazer um drink alcóolico. Abri o congelador, Smirnoff verde, gelo e limão. A combinação bombástica para me transformar em uma esponja marinha.

Veja como a decadência da vodka avançou sobre minha pessoa seguindo a sequência do que eu ouvia e fazia:

Level 1 - Judy Garland, Dinah Shore, Billie Holiday. Ação: Cantarolando de leve.

Level 2 - Liza Minelli, trilha de "Cabaret". Ação: Cantarolando com alguma coreografia mais elaborada em "Mein Herr".

Level 23 - La India, la princesa de la Salsa. Ação: coreografia completa em "Dicen que soy", com direito a chacoalhada de pézinho. "Dicen que soyyyyy la maledicion de tu viiiidaaaaaa".

Level 44 - Resolvi ligar pra uma amiga e falar sobre pirocas.

Level 67 - Erasure. Ação: Pelo pouco que posso lembrar eu estava sentada em uma cadeira giratória, girando. E cantando "I love to hate youuuuuuuuuuuuuuuuu". Talvez tenha havido vômito neste level, não tenho certeza.

Level 9999 - Eu não sei. Ação: Eu não lembro. Talvez Kylie Minogue e eu dançando de camiseta e calçola na frente da janela. Talvez Madonna e eu caída no sofá. Tudo é possível.

Depois, vácuo total. Silêncio. Lembro de flashes, que me pareciam sonhos mas não eram. O quarto balançava lentamente, como uma canoa em alto-mar. Acho que era meu cérebro boiando dentro da minha cabeça. Embebido em "voda".
Que vergonha.






Malditos russos. Escrevem "àgua" na garrafa só pra me enganar.