16 de mai de 2006

Um dia de fúria

Como foi meu dia de ontem, na cidade de São Paulo e o como o caos mudou minha rotina:

9:32 AM - Ao pegar o ônibus noto que este se denomina "reservado" com um pedaço de cartolina colado no vidro escrito com caneta BIC "Pinheiros". Há algo estranho no ar.

9:47 AM - Ao abrir o site UOL percebo que o mundo parece estar acabando. No escritório todos trabalham normalmente. Descubro que a agência Itaú aqui da Faria Lima foi detonada. Fico puta porque é o Itaú mais próximo (merda de banco) e se precisar de dinheiro estou fodida.

10:00 AM até 12:00 PM - Trabalho com uma janela do word aberta e outra da internet. Tudo o que vejo são ônibus incendiados, o Lula oferecendo ajuda e falando merda , fóruns de discussão sobre o caos apinhados de cariocas e paulistas se ofendendo mutuamente.

12:17 PM - Ligo para meu namorado, que está dormindo, para lembrá-lo de que o mundo está acabando. Ele não entende muito bem, talvez pela sonolência.

12:34 PM - Saio para almoçar e vejo viaturas pelas ruas. Almocei no quilão, como de costume. O prato do dia foi tutu de feijão, ovo frito, bisteca de porco e couve. Comi R$6,14.

13:58 PM - Meu irmão me envia uma mensagem: "VAI PRA CASA" em caps lock. Eu ligo pro infeliz e ele diz que está assistindo tv no escritório e que, se depender do que os jornalistas dizem, São Paulo está pior que o Iraque.

15:15 PM - Meu pai liga no escirtório, diretamente de Shittyville para me alertar de que o mundo está acabando. Me pergunta se eu não posso ir pra casa. Digo que não dá, está todo mundo trabalhando. Pensando bem, adoraria ser liberada, chegar em casa, tomar banho e jogar playstation2. Mas não sou liberada.

16:09 PM - A rua em frente está apinhada de carros. Buzinas soam sem parar. Carros ficam parados por 30 minutos, sem andar 5 centímetros. Algum maluco começa a dar ré e volta pro estacionamento do prédio. Outros começam a dar ré e invertem voluntariamente a mão da rua. Minha vontade de vazar cedo some porque só poderia chegar andando até minha casa. E eu odeio andar.

17:38 PM - Pelas condições do trânsito vejo que chegarei em casa tarde. Provavelmente depois do toque de recolher. Que porra de toque de recolher é esse? Se eu sair pela rua vão me metralhar a esmo? Tipo,isso aqui é São Paulo, não o Morro da Goiaba.

17: 41 PM - Lembro que os ônibus aqui não estão mais funcionando. E mesmo se tivessem, ficaria presa. Revolto-me com o fato de ter de ficar acuada por causa de um bando de bandidos competentes e policiais incompetentes.

18: 27 PM - Minha colega de trabalho,que sempre me dá carona, diz "vamos pra casa?" Eu prontamente digo que sim,imaginando que só verei minha cama depois das nove da noite. Ao sairmos pela rua, está deserta. depois do estranhamento, seguimos até o estacionamento e vemos que todo mundo está indo em direção à Faria Lima. Concluo que as pessoas são imbecis, e que em sua grande maioria, não sabem cortar caminho. Querem pegar as principais vias de acesso. E ficam presas.

18: 47 PM - Depois de tentarmos um caminho alternativo que não deu certo, vamos por outro, que milagrosamente está bem mais sossegado. Ela me deixa na esquina, a 3 quarteirões da minha casa. Imagino que serei metralhada. Haha. Estou brincando, eu só me preocupava em comprar um cigarro. A padaria está entupida (as pessoas precisam de pão fresco em situações de caos urbano). Desisto do cigarro.

18:59 PM - Chego em casa. E cheguei mais cedo do que costumo chegar em dias "normais". Engraçado. Tive que ligar para todo mundo avisando que cheguei. Viva e com todos meus membros presos ao meu corpo. Abro a geladeira e noto que ali existem 4 latas de cerveja. E eu estou sem cigarros. Caralho.

19: 11 PM- Depois de procurar moedas pela casa, finalmente junto R$ 2,75. Desço e me dirijo à padoca. Ao atravessar a avenida percebo que está todo mundo parado. Parecem aqueles flmes de vulcões que explodem no centro da cidade ou de meteoros apocalípticos. Filas e filas de carros que não se movimentam,cruzamentos fechados, gente com olhar desesperado. Ando calmamente entre os carros e chego à padaria.

19:26 PM - Já em casa, com o marlboro em mãos, abro uma cerveja, como milho cozido com margarina e Fondor (parece nojento mas é muito bom). Na TV, a mesma coisa em todos os canais. Só o sbt que passa a novela dos mexicaninhos adolescentes é diferente.

21:33 PM - Meu irmão, roomate e cachorrinha chegam em casa são e salvos. Estamos todos felizes, contentes, comendo milho cozido e assistindo TV Fama.

22:07 PM - Meu irmão joga Half Life 2 no PC eu e o roomate assistimos belíssima, falando mal da decoração dos ambientes e do cabeção da Glória Pires. A cachorra dorme.

22:57 PM - Meu irmão ainda joga Half Life 2, o roomate desistiu de assistir à tela quente porque o filme com um monge voador não presta, e liga o playstation para jogar Resident Evil 4. A cachorra está dormindo e eu comendo um pacote de biscoito de polvilho.

23:12 PM - Os meninos pedem uma pizza, meia margherita meia quatro queijos. Eu escovo os dentes, ponho o pijama e deito.

23:39 PM - Eu me dou conta de que esse dia deverá ficar para a história e que amanhã irei mostrar no meu blog como as pessoas exageram quando começam a sentir pânico. E que eu estou aqui e vejam, o mundo não acabou. Começo a babar no travesseiro e finalmente sonho com Charlton Heston.