24 de jun de 2007

Smoke on the water

Em um mundo onde as pessoas estão cada vez mais politicamente corretas e cada vez menos permissivas à individualidade, os fumantes estão acuados.

Eu, como fumante, sinto-me obrigada a aceitar mil coisas enquanto tento fazer as pessoas apenas entenderem que fumo porque quero e é um direito meu. Regra única: Eu não forço ninguém a fumar, então porque os não fumantes enchem a paciência dos viciados em nicotina, falando barbáries para pararmos? Que diabos?

Quando vejo uma gordona se entupindo de coxinha e coca-cola eu não chego nela e digo "ei, você vai morrer com isso sabia?". Ou chego lá e falo "ei, deviam colocar fotos nojentas de artérias entupidas em todo lugar que vende pastel". Pois deviam, não é? Mas que porra.

Eu em um bar, certa vez, sentei me ao lado da janela. Perguntei ao garçon se podia, e com permissão concedida, acendi meu cigarro e coloquei o braço pra fora. Ventava bastante, estava frio, mas não queria incomodar as pessoas. Eis que a uns cinco metros, a mesa ao lado é ocupada por 3 mulheres. Todas, sem exceção, usavam uma quantidade de perfume exagerada. Era um cheiro de perfume paraguaio tão forte, que eu me sentia caída no chão de uma loja de perfumes em Assunção. Eu estava enjoada, e tão enjoada que nem a cerveja descia direito. Parecia que eu virava uma garrafa de Giorgio Beverly Hills goela abaixo. Mas é clima de buteco, e eu estava bêbada o suficiente para não me importar. Eis que ouço a mulher reclamando do cigarro "ai é um absurdo isso, falta de respeito, vou reclamar com o gerente". O bar era tão tosco que o gerente devia ser o chapeiro. Elas ficaram olhando feio pra minha mesa, e chamaram o garçon. Ele me entregou um bilhete, assinado pelas três mal-amadas, falando que eu era sem-educação e não tinha respeito pelos não-fumantes. Eu sou uma lady, até onde a paciência permite. No entanto, bêbada que estava, olhei para mesa delas e disse "Pois é, pelo menos meu Marlboro é original. O fedor de perfume falsificado que as senhoras exalam é tão forte, que eu devia chamar a vigilância sanitária". Lançaram a grande cara de cu para mim, mudaram-se de mesa.

Outro dia, eu no ponto de ônibus, avenida movimentada, pico do rush. Carros, caminhões e ônibus soltando aquela fumaça preta na cara de todo mundo, eu com os olhos lacrimejando e tentando não respirar muito freqüentemente, porque o gosto de diesel gruda na boca e não sai. Aí, com aquela zona e ônibus que não chega, eu acendi um cigarro para relaxar. Lembrem-se eu estava a céu aberto. Não era um cubículo fechado e sem janelas. Era no meio da rua. Aí um casalzinho telemarketing (não me perguntem, atendente de telemarketing tem cara de atendente de telemarketing), começou a chiar. Lá eu, me segurando. Eu não joguei merda neles, eu não catarrei no cabelo da moça, eu não urinei no sapato do cara. Eu não matei uma ninhada de gatinhos na dentada. Eu simplesmente acendi um cigarro. E ficaram lá se abanando, a mocinha fazendo caretas, o rapaz tossindo. Eu olhei pro cigarro e falei alto, sozinha: "Todo mundo respirando a fumaça de 400 carros por segundo, e as pessoas reclamam de um cigarro. O mundo está cheio de imbecil". O casal fez cara de cu, e afastou-se de mim.

Eu fumo. Tem gente que toma laxante e caga até as tripas pra não engordar. Tem gente que come meleca de nariz. Tem tanta gente nesse mundo fazendo coisas que não são saudáveis, mas é direito delas fazerem. O mundo não tem direito de tratar o fumante como um assassino criminoso. E é assim que querem que as pessoas se sintam?

Eu não permito que me desreispeitem porque não desrespeito ninguém. Agora, não se intrometam nos meus pulmões. Existem regras de etiqueta para fumantes. Eu obedeço todas elas. Deviam ter leis para os não-fumantes insuportavelmente chatos.



Para evitar constrangimentos, esconda sua cara em meio à fumaça.