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22 de dez. de 2008

Teatro do sofá

Quando era era criança não podia sair de casa. Meu pai não deixava a gente brincar na rua. Então, eu gostava de entreter meu irmão com coisas bobas para passar o tempo. Eu contava piadas, inventava histórias. Todos meus bichos de pelúcia tinham voz e personalidades próprias. Eu imaginava que enquanto dormíamos eles faziam festas e viajavam para partes diferentes do mundo usando um portal que ficava embaixo da cama. Depois eles contavam as histórias pra gente. Na verdade eu contava as aventuras como se fosse eles.

Minha brincadeira favorita era o "Teatro do Sofá". Eu desenhava rostos na sola dos meus pés , entrava atrás do sofá, colocava os pés pra cima e fazia uma peça com roteiro e tudo. Os pés contavam piadas, histórias, dançavam... Tudo para a platéia de uma pessoa só: meu irmão.


Meu desenho fabulóstico para ilustrar o teatro do sofá. Até onde sei, meus pés são iguais, mas no desenho ficaram um tanto deformados. Muito deformados.

Morro de medo de esquecer essas histórias de infância. Faço uma força enorme para lembrar delas o máximo que puder.

9 de nov. de 2008

War

Há uma batalha em mim. Explosões, corpos, lágrimas, ódio, tristeza, medo, armas carregadas e territórios perdidos.
Trincheiras lamacentas onde gritos inconsoláveis ecoam em campo aberto.
Minha guerra.

E lá fora o sol brilha tanto que quase me cega.



You look so peaceful when you sleep
Beautiful creep
It's such an easy way to choose
You lose

14 de set. de 2008

Jardim Imaginário

Na rua em que eu morei durante grande parte de minha vida vivia um homem chamado Jales. Eu o via todos os dias, andando sem camisa entrando em terrenos cheios de mato, cercado por cães e gatos de rua. Ele tinha a pele queimada cor de jambo, com aparência de couro, contrastando com seus cabelos brancos. Seus dentes, os poucos que restavam, eram podres; muito magro com as costelas aparentes, era praticamente um indigente.

Todos os dias, altas horas da noite, Jales descia a rua carregando sacos de lixo, que ele levava para dentro de sua casa. A residência destoava completamente das outras: bairro classe média-alta era repleto de casas de bom tamanho, bem cuidadas com jardins e portões de grade. A casa de Jales era apenas um muro alto, com portão apodrecido de madeira fechado por uma corrente enferrujada. Não dava para ver o que tinha atrás daquele portão. A sua calçada nada mais era do que caminho de folhas e pedregulhos. Plantada ali, uma árvore Chapéu-de-Sol com mais de 10m de altura era o buffet noturno de dezenas de morcegos.

Além do hábito inverso de trazer lixo pra casa, por várias vezes eu o via andar pelas ruas do bairro, segurando baldes cheios de sementes, sacolas de plástico, pás, pincéis e tinta. Ele "decorava"a vizinhança. Plantava flores, pendurava garrafas em varais de barbante como se fossem cortinas de vidro e pintava postes e meio-fios com azul, verde, branco e amarelo. Certas vezes eu via Jales vestido com roupas sociais e usando sapatos, cabelo cheio de gel penteado para trás. Ficava me perguntando para onde ele ia.

A molecada da rua tinha um certo medo dele, por motivos óbvios. Inventávamos histórias, fazíamos piadas sobre seu estilo de vida. Mas nunca lhe dirigíamos a palavra. Quando brincávamos e Jales passava arrastando os chinelos gastos, exibindo o tronco esquálido e desnudo, fingíamos que não estava lá. Não queríamos arranjar confusão. Mas Jales arranjava as suas: ele odiava seu vizinho lateral. Gritava palavrões, jogava coisas, cuspia. O ódio justificava-se por uma única janela: vizinho tinha uma janela no segundo andar que dava direto para a casa de Jales. E Jales não suportava que alguém visse como era sua casa. A não ser que fosse convidado.

Acabei ficando amiga da filha do vizinho odiado por Jales. Ela era mais nova do que eu, não tínhamos nada em comum (aos 13 anos eu já havia deixado as bonecas - e ela ainda brincava com bonecas). Mas eu queria muito olhar pela janela. Queria ver como vivia Jales, qual era seu segredo. Um dia a menina me chamou para ir até a casa dela brincar. Peguei algumas bonecas que estavam enfiadas em uma caixa e corri para lá. Finalmente eu poderia ver o que havia atrás do portão. Subi as escadas e notei algo estranho na sala. A janela que despertava minha curiosidade estava tampada com uma placa de madeira. Escondi minha frustração e fui brincar com a garota. Enquanto fingia interesse por vestir fraldas em ursos, eu perguntava a ela sobre Jales. Ela disse que não sabia muito. O irmão dela, que tinha a mesma idade que eu, entrou no quarto. E ouvindo que falávamos sobre Jales, ele me contou sua história.

Jales havia sido um homem normal. De família próspera, ele possuía uma revendedora de veículos. Bem sucedido, estava para se casar quando contraiu meningite e acabou meses internado em um hospital, muito doente. Eventualmente conseguiu se curar - o corpo ao menos, pois havia ficado completamente louco. A doença lhe causou uma série de paranóias e fobias. A família percebeu que ele já não podia mais tomar conta da loja de carros, sua noiva o abandonou e Jales foi morar em um terreno que pertencia a ele. Um terreno com um casebre no meio - provavelmente um resquício do que um dia havia sido uma fazenda inteira. Jales foi viver ali, sozinho, e construiu em torno de si a maior paranóia de sua vida.

Depois de ouvir a história, minha curiosidade ficou maior. Eu precisava ver o terreno. Pedi, quase implorando, para ver. O menino ficou meio encabulado, disse que a madeira estava lá para evitar problemas. Choraminguei que seria por apenas um minuto, que Jales nem iria perceber. Fomos então os três para a sala. O garoto levantou a madeira e a colocou de lado. Eu me aproximei e senti um cheiro horrível. O que vi, nunca mais vou esquecer.

Um casebre de alvenaria estava cercado por montanhas de lixo. Montanhas separadas por "tipo": jornais, caixas, garrafas plásticas. Logo observei vários baldes quebrados, alguns cheios de pássaros mortos. A lenda se tornava real. Um caminho de árvores cheias de papel enrolado levava da casinha até o portão da casa. O garoto ao meu lado me disse para prestar atenção no grande amontoado de jornais embaixo de uma barraca de madeira podre. Pude perceber: os papéis úmidos e embolorados escondiam um carro. Um carro branco. Tudo que havia sobrado do homem antes da doença foi um carro zero de sua revendedora, que ele guardava embrulhado em jornal.

De seis em seis meses um caminhão da prefeitura passou a visitar Jales. Homens vestindo máscaras e roupas alaranjadas retiravam pilhas de lixo e jogavam no caminhão. Às vezes, uma viagem não era suficiente para tirar tudo. Eu via, de minha sacada, Jales observando os homens levarem seu tesouro, inconformado. Nesses dias ele berrava a noite inteira, gritos que a rua toda ouvia. Não entendia bem o que ele berrava, era uma mistura de palavrões e lamentos. Jales não era preso, nem multado. Acabei descobrindo que sua mãe, bem idosa, o sustentava como podia. Quando via Jales limpo e vestido era quando ele ia até o centro visitá-la.

O tempo foi passando e Jales saía cada vez menos de casa. Às vezes ele sumia e eu pensava em chamar os bombeiros. Imaginava que ele podia ter morrido picado por escorpiões (que eram muitos no bairro) ou de doença. Mas logo ele aparecia de madugada, arrastando grandes sacos pretos pela calçada. E de certa forma eu me acalmava.


***

Contei essa história porque acabei de assistir um documentário chamado Grey Gardens, de 1975 e me veio a lembrança. O filme mostra a vida de uma velha socialite falida e sua filha solteirona vivendo em uma mansão decrépita nos EUA. Pobres, famintas e mentalmente afetadas, as duas criam um mundo imaginário no meio do lixo, gatos e pulgas onde tudo parece estar normal. Na época o documentário tornou-se um escândalo já que as duas eram parentes de Jackie Onassis - que logo depois da repercussão, mandou reformar a casa e cuidou das duas. Quem quiser assistir (em inglês, sem legendas) tem inteiro do youtube.

Ideal pra quem adora questionar a racionalidade e a loucura humana.

5 de out. de 2007

O que muda e o que fica

Como vocês viram eu mudei a cara do blog. Ele estava péssimo, e eu deixava para arrumar depois. E como tudo que eu deixo pra depois, fica pra "bem depois", ontem tive um pequeno surto e arrumei tudo. Esse blog existe desde 2002, e por mais que eu já discorde de muitas idéias que coloquei aqui no passado, resolvi deixar os arquivos velhos. Penso que como tudo na vida é mutável, eu mudei. Estou sempre mudando. A essência fica, mas muita coisa eu deixo pra trás, querendo sempre substituir por outras melhores. Eu comecei a escrever aqui com 21 anos, ainda na faculdade de jornalismo, ainda sob as idéias socialistas que os professores socavam, literalmente, na minha cabeça. Meus amigos continuam os mesmos, ao menos. São pessoas que como eu, mudam de idéias, mas não de essência.

Lendo esses arquivos, sei que algumas coisas que eu adoraria que ficassem iguais sempre já não são mais assim. Não estou falando do meu corpo, ou da minha disposição física. Claro, adoraria ter o mesmo corpo que tinha aos 21, mas se olho no espelho, não acho que o corpo de 26 é ruim. É meu corpo, e inegavelmente, ele tem 26 anos.

A essência, essa nunca muda. Vejamos um post meu de setembro de 2002.
Ah sim, os erros de digitação e pontuação e enfim, os erros gerais deste trecho não foram alterados:

Hoje estava vendo tv.Tinha um cara meio afeminado jogando tarot para as pessoas que ligavam para o programa. Tudo via telefone mesmo. TOSCO. fico imaginando que é o imbecil que acredita nessas coisas e é mais imbecil ainda a se sujeitar a fazer a ligação humilhante.
"Ai meu marido tá desmpregado Beto (esse é o nome do tarólogo tosco), o que eu faço" e ae o cuzão responde "Olha amiga tem alguma coisa no caminho que está impedindo seu marido de conquistar as coisas. Esta carta aqui me diz que ele anda tendo problemas com a sogra. isso é verdade né?"
"Ai é mesmo. Meu marido não se dá bem com a minha mãe..."
VAI SER ÓBVIO ASSIM NO CACETE!

Sabe? Há 5 anos atrás, eu já falava palavrão e era muito mau-humorada. Hoje eu continuo assim, só que manero (tento ao menos) no uso dos palavrões.

Eu mudo, mudo, mudo. Mas continuo a mesma coisa. Até eu me impressiono.

19 de set. de 2007

Console

Meu primeiro videogame foi o Atari. Começo dos anos oitenta, eu mal sabia ler direito. Não passava horas e horas jogando porque eu também gostava de brincar com brinquedos normais. Eu me lembro que meu jogo favorito era uma boca que voava em um fundo preto e tinha que comer as coisas que passavam. Não podia pegar o pepino senão dava azia e a boca morria. Completamente idiota, como milhares de jogos do Atari. Mas aos seis anos, um quadrado vermelho engolindo quadrados coloridos parece muito divertido. Meu pai trazia "fitas" de presente quase toda semana, eram aquelas tinham 4 jogos, que você alternava levantando os pinos que ficavam na frente.

Depois de alguns anos, ganhamos o NES. Na verdade era um genérico, no Brasil haviam milhares deles, vindos diretamente do "Paraguay". O original era caro demais. E lá com seus 8 bits conheci Mario, Castelvania, Contra, Mega-Man, Metroid, e tantos outros. Comprávamos as revistas de games para saber o que vinha por aí. O Brasil era entupido de fitas falsificadas, já nessa época. E de locadoras de jogos. Mesmo assim, as coisas demoravam muito para chegar aqui, às vezes anos para um "lançamento" de jogo. Anos depois, uma surpresa.

Eu e meu irmão ganhamos um SuperNes. Original, vindo dos EUA. Um dia eu conto aqui como foi "a noite em que ganhei meu SuperNes", é engraçado, mas voltando ao assunto: ninguém mais tinha o console na cidade inteira, e as locadoras não tinham jogos também. Jogamos Super Mario World durante quase seis meses, até uma locadora disponibilizar 3 jogos: Pilotwings, The Legend Of Zelda "A Link to the Past", e o próprio Mario World (rá!).

O SuperNes foi uma das melhores coisas da minha infância. Não sei porque dizem que games não são saudáveis para crianças. Estimularam muitas coisas em mim, inclusive criatividade e raciocínio. Aprendi a entender inglês jogando Zelda com um dicionário na mão, traduzindo tudo.

E um belo dia, o SNES ficou para trás. Deslanchou a tecnologia dos consoles 3D. E o mundo ficou tridimensional! Que loucura, que gráficos! Meu Deus, quando vejo animações daquela época penso "Que tosco!". Mas foi revolucionário.
Chegou o Sega Saturn em casa.
Depois, veio o Playstation.
Depois Dreamcast.
Depois Ps2
Depois GameCube

Quando alguém olha de fora deve pensar "mas essa menina ficou jogando videogame em casa a infância toda?" Não fiquei. Eu tinha amigos, ia bem na escola, gostava de ler e brincar. Só não saía muito de casa. Meu pai sempre comprava um jogo novo, quando podia. Acho que ele fazia isso pra ficarmos longe da rua. Foi o jeito que encontrou pra evitar que ficássemos expostos às "intempéries" da vida. Mal sabia ele que por estudarmos em colégio estadual em bairro de periferia estávamos expostos a intempéries bem mais perigosas. Traficantes com dez anos de idade dentro da sua sala não é mole não.

Mas qual o motivo de eu estar falando de videogames agora?

Bom meu queridos, é que algo espetacular (ao menos para os amantes de games) acontece comigo. Neste instante, tenho em minha casa um Nintendo Wii, em xbox360 e um Playstation 3 instalados na sala. Nenhum deles é meu, devo o favor ao site para o qual escrevo análises de jogos, que me emprestou os bichinhos.

Olhando assim, sinto uma coisa estranha. Cá estou eu, beirando os 30, feliz em jogar videogame. É tão estranho, mas ao mesmo tempo, tão normal pra mim.

Vou jogar até no asilo.


Heavenly Sword, jogo estilo "brawler" de espadas, parecido um pouco com God Of War. É para o play3 e está em minhas mãos neste instante. Semana que vem, sai a minha nota pro jogo. Vamos ver se o Playstation3, o mais caro da nova geração, vale o preço.


1 de jun. de 2007

Um post teoricamente triste, e provavelmente inútil.

Aos 12 anos eu gostava de um menino. Chamava-se Leandro. Era um japonês mestiço, que usava óculos e um mullets estranhíssimo. Eu achava a coisa mais linda, porque ele tinha sardas e cara de inteligente. Eu olhava para ele durante o intervalo das aulas, e escrevia cartas de amor que nunca seriam entregues e imaginava situações que nunca aconteceriam. E

Eu só olhava o Leandro de bem longe. Ele tinha um sorriso muito bonito. Acho que nunca tinha ouvido a voz dele. Não me lembro dessa parte. Creio que não ouvi.

Certo dia, uma amiga (ah essas coisas de criança) roubou uma carta que eu escrevi e entregou ao rapazinho. Quando ela me contou eu fiquei brava, mas depois pensei que, bom, seria interessante se ele soubesse. Talvez ele olhasse para mim e eu finalmente poderia ouvir a voz do japonês sardento. Talvez eu pudesse fazê-lo rir.

E fiquei estranhamente feliz. Ao fim do intervalo, eu caminhava no corredor, e o Leandro estava a alguns metros de mim. Ele segurava algo nas mãos. Um pedaço de papel. Era minha carta. Ele olhou para trás e viu que eu estava ali, e eu sorri. Ele parou de andar e eu fiquei a um metro dele. Ele rasgou a carta, jogou no chão. Olhou pra mim. E me deu um chute no estômago.

Assim, um chute no estômago, com força. Eu caí no chão. Sentia muita dor, daquelas que dão ânsia de vômito. Se me perguntam hoje, acho que foi uma das piores sensações que senti na vida. Sei que eu tinha doze anos, essas coisas podem parecer maiores do que são. Mas eu não sei medir isso. Eu fiquei ali caída, com as mãos na barriga, os olhos cheios de lágrimas e tantas outras crianças passando em volta de mim, rindo. Corri para o banheiro, vomitei sem parar e fiquei sentada ali dentro, chorando.

Nunca esqueci isso, e quando conversam animadamente em uma mesa, sobre as agruras dos amores, eu lembro dessa história. Não conto. Eu era criança e vai parecer bonitinho.

Hoje lembrei disso, não sei por quê. Esse deve ser um daqueles posts chatos que ninguém tem paciência para ler. Mas tá aí.

Eu e meu chute no estômago.

25 de mai. de 2007

Panteão as Artes

Minhas incursões no mundo artístico nunca foram de grande sucesso. As pessoas botavam muita fé em mim por eu ser irmã de um artista genuíno, daqueles de verdade mesmo, criativo, doido, e acima de tudo, talentoso. Aí nasceu a pequena aqui, o povo achou que ia pegar carona na rabiola. Eu bem que tentei, mas não foi bem assim.

Dos 3 aos 5 anos - Aulas de balé em um conservatório. Eu ficava muito bonitinha de tutu rosa, meia rosa, sapatilha rosa. Mas aquele troço me dava coceira, faniquito. Eu pulava aleatoriamente e minha professora insistia que eu ficasse parada em demi-pliè. Minha alegria era pedir para ir ao banheiro e fugir até a sala de piano. Ficava encostada na porta, ouvindo as aulas, queria estar lá dentro. Meu irmão fazia aulas de piano, mas não gostava. Aí eu pegava os livros dele e ficava ensaiando em um chaveirinho paraguaio que eu tinha. Era um mini-teclado, e eu achava que estava tocando uma sonata.

Dos 5 aos 10 anos - Cursos e cursos. Milhares deles, oficina de artes, oficina de pintura, de poesia, de colagem, de escultura. Na de poesia eu até ia bem, ganhei algumas medalhas de "honra ao mérito". Lembro de ter escrito muitas poesias para coisas estranhas, como uma para a cor azul ou um conto sobre a vida de uma bola de Natal. Eu via aquilo tudo meio hippie demais (desde aquela época). Eu lá assistindo Jaspion, Thundercats, e os coordenadores me falando dos índios e dos sacis. Queria fazer uma escultura gigante do Corujito e eles me falando que a coruja manca de pena roxa brasileira era bem mais bacana. Eu não pensava assim, porra. O Corujito tinha asas de arco-íris e lançava altas sabedorias pra She-Ra. Mil vezes mais legal.

Dos 11 aos 17 - Dança (de novo). Sapateado, Jazz. Quedas, chutes, voadoras, músicas do George Michael, quadris, rebolar, girar e cair de novo. Já dancei vestida de lodo. Isso, lodo, aquela gosma verde que dá na borda da piscina. Eu era o lodo que segurava uma bela pérola no fundo do mar. Uma coisa conceitual assim, de professor gay de jazz. A pérola, a menina loirinha, vestida de branco, com pérolas presas no corpo, um luxo. Eu lá de verde “lodo”. Um collant de corpo inteiro. Não preciso dizer que quando a fantasia da pérola estourou logo no primeiro passo que ela deu, minha alegria de lodo foi inexplicável.

Dos 16 aos, cof cof, 16 - Teatro. Oh sim, eu caí nessa. Sempre ouvi que eu tinha jeito pra teatro. Deve ser a quantidade de caras estranhas que consigo fazer. Eu sempre odiei essas coisas, não sou pessoa de “atuar”. Não curto “ficar pelada em nome da arte”. Rolar no chão e fingir que sou uma pedra, nem pensar. Mas eu tentei. Cheguei lá, me apresentei. Primeiro exercício, para vencer a timidez e concentrar-se: A professora escolhia duplas, colocava um de frente pro outro. Não pode sorrir, se mexer, virar para os lados, nem desviar o olhar. Concentrar-se somente em um ponto e esquecer que aquilo é outra pessoa, é somente uma imagem. “Uau”,pensei “quem sabe funciona, dessa vez vou me esforçar”. Aí ela escolhe meu par. Sento na frente dele. Um japonês vesgo. Vesgo, repito. E eu tinha que fixar meus olhos no olhar dele. Vesgo. Sem rir. PORRA! TÁ DE SACANAGEM? Eu tive um acesso de riso de 15 minutos e fui expulsa da aula. Nunca mais voltei.

Dos 17 aos 19 - Aulas de aquarela. Sim, fiz aulas para aprender a pintar aquarelas. Eu ensopava o papel, fazia uma grande aguaceira colorida e chamava de “Tulipas no Bosque”, ou algo assim. A professora era uma alemã gorda, que, ao me ver pintar, fazia uma cara de desgosto muito grande. Já minha mãe, até enquadrou as Tulipas no Bosque e pendurou na casa dela. Okay, não fica em um lugar visível, está atrás da porta da dispensa, mas já um tipo de consideração.

Dos 14 até hoje - Eu sei bordar ponto cruz. Minha mãe me inscreveu em um curso porque me achava muito nervosa e estressada. Não funcionou muito já que eu costumava a bordar facas ensangüentadas e serras elétricas. Se você precisar de iniciais bordadas no seu enxoval, me dá um toque. Cobro baratinho. Só que o acabamento não é lá essas coisas.

Hoje: - Realizo a arte de acordar, tomar banho, me trocar, passar maquiagem em vinte minutos, correr até o ponto de ônibus e fazer cara de coitada por chegar todos os dias atrasada no trabalho. Também me dedico à incrível arte de criticar as coisas sem parar, mas sempre com o intuito de fazer pessoas rirem. Geralmente consigo, mas nem sempre minha obra é apreciada.

Auto-Retrato em paint. O Marlboro queimando é fundamental. Notem que eu fiz meu rosto quadrado feito uma caixa de leite e minhas mãos não tem dedos. O realismo urge também nas minhas canelas, tão grossas quanto a minha cintura. Primoroso.

20 de abr. de 2007

Visão além do alcance.

Um conto de Natal fora de época.

No Natal de 1989, me foi revelado o segredo da vida. Uma coisa singela, que me fez questionar a própria verve da existência humana.

Minha família, naquela época, reunia-se na casa de minha tia para a ceia. Eu e meu irmão dormíamos na casa dela porque tínhamos primos de idades compatíveis, e a criançada mal via a hora de abrir os presentes na manhã seguinte.

Eu tenho um primo, gordo, que na infância era um gordinho invocado. Saca o gordinho invocado, nervosinho, que bufa, faz bico, brigão, chato e pentelho? Bem esse era o Gú.

Hoje ele é gerente de banco. Saca o gerente de banco gordinho? É ele.

O moleque era um chato, adorava esnobar eu e o meu irmão com os presentes dele. Tudo tinha que ser maior, melhor, mais foda, mais legal, consequentemente, mais caro. Todo Natal ele esnobava a gente. "Eii, ganhei um Maximus, hahahaha" E meu irmão lá, com um carrinho de controle remoto dourado e paraguayo, com cara de cachorro perdido. Mas sabe, meu irmão era um menino paciente. E de certa forma não queria arranjar confusão, porque, veja bem, apanhar de um gordinho invocado não é legal.

E ele se segurava, engolia seco, enquanto o gordinho se esnobava com o Maximus vermelho.

Pois foi no Natal fatídico de 1989 que o meu mundo mudou.

Era época do Thundercats, os felinos mutantes usando collant e brigando com uma múmia em forma decadente. Os meninos queriam a espada com o olho de Thundera. Era o presente oficial de vários molequinhos naquele ano.

Na manhã de Natal, o gordinho acordou, comeu um panetone inteiro e foi abrir os presentes, eufórico. Meu irmão foi calmo, sorrateiro, embaixo da árvore. Eu e minha prima, ganhamos pôneis de plástico, e ficamos lá, penteando os cavalos cor-de-rosa. Meu primo abriu o pacote dele. Era a espada oficial dos Thundercats, o olho de Thundera brilhava de verdade, ela esticava, cheia de traquitanas.

Meu irmão pobrezinho, ao abrir o pacote se deparou com a versão pobre da espada felina. De plástico, durona. O olho de Thundera era um adesivo torto. O gordinho ria que se matava, ficava chacolahando aquela coisa no ar, acendia a luz, repetia "Me dê a visão além do alcance!". Tava todo, todo o rapazinho obeso, pulando no sofá. Meu irmão ficou olhando a espada dele, embanhada, chocha. Aí o gordinho desafiou o coitado para um duelo no quintal.

Obviamente meu irmão ficou sem graça, lá vinha aquele folgado esnobar ele de novo. Mas ele foi, porque ele até pode ser pobre, mas covarde ele não é.

Aí os dois se encararam no jardim. O gordinho acendeu a espada três vezes, girou no ar, fez pose de ninja, falou que meu irmão parecia o Snarf. Meu irmão fechou os olhos, maldita humilhação, levantou a espada no ar. O gordo veio correndo, em câmera lenta, vinha bufando, tentando acertar meu irmão. E lá, com a espada tosca erguida, humilhado ele rebateu o golpe.

A espada do gordinho se espatifou em mil pedaços. Voou plástico, pilha, olho de Thundera, fios pra tudo que era lado. Estilhaçada, destruída.

O gordo ficou perdido, olhando o cotoco de plástico e fios na mão dele.

Meu irmão ergueu a espada, de peito inflado, sorridente, olhou para o céu e mandou um:

-THUNDERCATS, HÓOOOOOOOOOOUUUUUU!

Foi foda.


4 de abr. de 2007

Like a Virgin

A coisa mais ridícula que eu fiz na minha vida provavelmente será a coisa mais ridícula que eu terei feito pelo resto da minha sublime existência. Será muito difícil superar. É algo vergonhoso para qualquer ser humano, mas que eu não sinto tanta vergonha assim. É o tipo de coisa que você lembra, coloca a mão na cabeça e pensa "hahahahahahahahaha". Pois é.

Aos 17 anos eu, eu... Eu...Ah, desembucha logo!

AOS 17 ANOS EU FIZ UMA PERFORMANCE DE LIKE A VIRGIN DA MADONNA EM FRENTE A CENTENAS DE PESSOAS.

Não me perguntem como eu cheguei lá. Era uma gincana do colégio, algo assim. Estavam lá todos os alunos do colégio, mães, pais, avós, tios... E eu. Eu embaixo de um holofote com um micro short, um bustiê de paetês, meia arrastão e botas. Uma baita performance. É valido lembrar que sendo uma pessoa beeeecha como eu, Madonna sempre foi minha diva. Eu quis fazer uma homenagem a todas as vezes que dancei ao som de "Papa don't preach" em frente ao espelho. Pois é meus queridos, enquanto as meninas dançavam Ilariê da Xuxa, eu me esbaldava no rebolado da Madonna. Desde criança.

Óquei, vamos ao caso. Eu ensaiei, mas não muito. Aos 17 eu já sabia a letra da música de cor, obviamente. Eu só aperfeiçoei a dublagem. Eu pensei, quando me passaram a tarefa: "Bom, vou lá, finjo que canto, dou uns pulos e boa. Não será tão ruim assim, vai ter gente píor do que eu. O lugar vai estar vazio. Vai ser divertido. A sala pediu esse favor pra mim, fui eleita para a tarefa. Eu posso fazer isso". Arrã.

Eu cheguei ao local, que era uma "Cava". Chama-se assim porque é um grande estádio coberto da cidade interiorana que eu venho. Isso, adicionem ao fato que eu fiz uma performance na frente de um monte de caipiras. Humilhação multiplicada por 1000. Esperem, a coisa vai piorar.

Eu cheguei vestida para matar (ou me matar de vergonha). O modelito, maquiagem, cabelo. Tudo envolto em um robe preto de cetim. Claro, eu sou discreta, o modelo "Madonna does Vegas" era só pro momento da apresentação. Eu entreguei o CD para o rapazinho do som. Escrevi um bilhete com o número da faixa e o tempo de duração, colei na capa.Sentei em um banco e esperei chamarem meu nome, enquanto assitia as outras apresentações das salas. Meu medo aumentou quando uma garota fez uma versão de "Hanky Panky" da própria Madonna (aquela que ela canta em Dick Tracy). Era uma garota que fazia academia de dança comigo e ela era boa. (Adendo: sim eu fiz dança durante um bom tempo da vida, jazz, sapateado, a pataquada toda).

Hanky panky é bem mais classy do que Like a Virgin. Eu fiquei apavorada, a menina era boa, escolheu uma música bem menos ridícula. Eu só peguei a porra de Like a Virgin porque era a mais conhecida caceta! Eu estava fodida. Que palhaçada, eu queria fugir, rasgar aquele bustiê de paetês e correr pra fora daquele lugar. Mas não podia. Depois de um garoto magrelo imitar o Reginaldo Rossi, chamaram meu nome. E lá fui eu.

Eu vou dizer que o cérebro é uma coisa doida. Basicamente porque eu não me lembro de nada. Eu me lembro de entrar no palco, da forte luz do holofote e da banca de jurados com professores e o diretor da escola bem na frente do palco. E me lembro de correr depois de 2 minutos e 45 segundos para me cobrir de novo. Eu havia cumprido minha missão. Não me lembro de aplausos ou de vaias. Mas...

Ao final do concurso, divulgaram o nome do vencedor. Do primeiro, segundo e terceiro lugares.

Você me pergunta: "Mas e aí fia, não me diga que você ganhou?" Calma, eu chego lá.

Assim que saí do palco as pessoas sorriam muito para mim. Eu não ouvia nada, parecia que eu estava em outro lugar, meio que em transe. Minha apresentação foi a última, eu esperei darem o resultado e peguei um táxi.

Vamos então ao que aconteceu durante os 2 minutos e 45 segundos de meu show particular:

Eu fiz movimento libidinosos. Me coloquei de quatro e engatinhei até a mesa dos jurados E ENGATINHEI NA MESA esfregando minha derriére no bigode do diretor. Pois sim. Eu rebolei como nunca havia rebolado antes. Fazia cara de vadia, gemia, me contorcia. Fiz coisas de Deus duvida. Só não tirei a roupa porque minha pomba-gira impediu. E eu só descobri meus atos quando assisti um vídeo da situação (que eu espero estar apagado e desaparecido do mundo a uma hora dessas),em frente a uma sala com dezenas de pessoas. Minha gente, foi terrível! Agradeci ao universo por meus pais não estarem lá (na verdade nunca souberam disso, e provavelmente devem estar lendo agora, então, oi mãe, oi pai! Eu sou boazinha viu?!)

Mas Sarah, e o final? Foi que nem filme? Você ganhou o primeiro lugar?

Não. O Reginaldo Rossi magrelo ganhou. Eu fiquei em segundo lugar e isso, porra, isso não vale nada. Mas vá lá. Vou contar essa história pros meus filhos.

E eu hei de me orgulhar. EU HEI DE ME ORGULHAR!

Like a virgin, uhhh

Touched for the very first time...



28 de mar. de 2007

Isto Non Ecsiste

Se tem uma coisa que me irrita neste mundo é o ocultismo. Tudo que é parafernália envolvendo energias, luzes mágicas, ovnis, astrologia, todas as "mancias", adivinhações, previsões, milagres, simpatias... Eu simplesmente abomino. É de minha natureza ser cética. Quem acredita, bom, pode acreditar em amiguinhos invisíveis e planos astrais, fiquem à vontade.

Por que estou dizendo essas coisas? Bom, é que ontem eu cheguei em casa e meu irmão assistia o History Channel, e estava impressionado com um programa que contava a história de Edgar Cayce, um norte-americano famoso por suas "clarividências" durante o início e meados do século XX.

Eu sentei e assisti a toda a baboseira, enquanto fumava meu marlboro. Meu irmão arregalava os olhos e dizia, "meu, olha isso, que bizarro" e eu dizia "rapaz, isso de chama charlatanismo, é bizarro mesmo que alguém acredite nesta montanha de merda". O canal, que teoricamente tem que ter um teor sério, me mostra apenas crentes, e pasmem, entrevistou um sujeito SEM DENTES que afirmava que as previsões do Cayce eram confiáveis. Quem diabos leva a sério as opiniões de um sujeito sem os dentes?

Quem paga para uma senhora (ás vezes sem dentes também) ler cartas e falar sobre o amor? Quem faz simpatia e enfia a calcinha dentro de uma garrafa de perfume e joga no rio?

Uma calcinha só atrai um homem se você MOSTRA a sua calcinha pra ele meu bem!

E a senhora que lê cartas, se dá bem na vida amorosa? Na profissional provavelmente sim, afinal de contas, ganhar um troco pra virar um baralho e falar da vida alheia sempre foi rentável. Menos em jogos de pôquer.

O mais bacana é que os baguás acreditam porque dentre 200 merdas que o psíquico fala, uma "milagrosamente" bate com a realidade. E isso faz dele um ser com um "dom especial".

Não vou convencer ninguém a virar um cético como eu, nem acho que levo minha vida melhor do que os outros porque não acredito em amiguinhos invisíveis e no poder de uma calcinha boiando em água corrente. Talvez no fundo, todo mundo só queria a mesma coisa:

Saber o que diabos fazer com a vida para viver em plenitude. E isso meus amores, é impossível de prever.

"Yo digo qué la bida és una cosa márrica, replecta de alegrrias e tristessas, pero és bálido biber-la. É preciso ecsistir en un plagno mayor. E por pavór, ligue para mí caso precsisse de un empurrón"


PS: Minha mãe agora resolveu ler meu blog. Eu fico feliz com isso, mesmo acreditando que ela possa ficar envergonhada (ou enraivecida) com algumas coisas (em especial este post). Mãe, eu sei que a senhora adora misticismos, budas dourados, incensos de limpeza ambiente, terapias holísticas e tudo mais. Meu amor por você está muito além do além, viu?