4 de mai de 2007

Calibre 38

Não consigo entender muitas coisas nestes país. Não entendo micareta, açaí e o excesso de kombis, por exemplo.

Mas o que me faz girar os olhos, passando a mão no queixo, é a situação do Rio de Janeiro. Eu não consigo entender. Todo mundo lá faz campanha anti-violência, enterra rosas na areia, se veste de preto e grita pelas ruas, fazendo sinal de pombinha da paz. Todo mundo chocado e horrorizado, todo dia tem um motivo (ou mais que um) para as pessoas dizerem "Temos que dar um basta!".

Amigos cariocas. "Basta" está mais pra "bosta". Ninguém faz nada efetivo, percebe? Ninguém. Vocês aí da cidade maravilhosa estão cercado de morros abarrotados de traficantes armados até os dentes. Aí a polícia que é corrupta (ligada a um governo estadual corrupto), entra lá, prende e mata meia dúzia de peixes pequenos e fica tudo bem? É tiroteio, chuva de balas, saraivada de chumbo. O povo atravessando a tal da linha amarela, a linha vermelha, tomando tiro, sendo assaltado, tomando mais tiro, parando em blitz da polícia, e de quebra, toma mais um tiro de raspão. Hã?

O foda são esses morros de favelas bem em cima das vias de acesso e dos bairros residenciais. Os tiros vão voando, caindo, acertando. Até dentro das casas, dentro dos carros, dentro da faculdade. Nem colete a prova de balas serve mais. O tiro vem do nada. Isso é uma das coisas mais freaks que eu consigo conceber em criminalidade. Você lá tomando um suco, sentado, lendo um livro e pum. Uma bala bem na sua nuca. Fim.

O que eu faria? O que acho adequado? Qual a minha vontade?

O impossível: Eu desmantelava todos aqueles morros abarrotados de barracos. Vão me dizer que tem gente de bem, que isso e que aquilo, mas sabe? Essa gente de bem, muita gente de bem, está morrendo. Os morros cruzam tudo que é lugar, e é deles que voam as balas dos bandidos e dos policiais. Eu não entendo, a porra da favela faz parte da paisagem carioca, aquele monte de quadradinhos coloridos, que pra mim parece um lixão; Aí vai a Regina Casé e mostra como a favela é legal. Favela não é legal não, os caras vivem em guerrilha lá dentro, todo o sistema de saneamento é errado e informal (ou seja, muita gente MESMO não paga conta de água), polui pra caralho. O sistema de coleta de lixo é praticamente inexistente. Ali vive todo mundo na sujeira, em meio a merda de gente e gente de merda (vulgo, trafica).

Morro é uma desgraça. A estrutura física do troço é um labirinto, feito de vielas e becos, pra traficante se esconder direitinho e ser acobertado pelos vizinhos. Pra polícia entrar lá dentro e nem saber pra onde começar a atirar.

Façam conjuntos habitacionais decentes, tirem essas pessoas daquele lugar, coloquem elas em espaços onde existam condições de vida. Mas não. As pessoas adoram aquilo. Tem vista pro mar. Acham lindo, faz parte da cultura "da comunidade" do "povo". Não adianta. Tá no imaginário popular carioca, na música, na literatura.

O morro, o malandro, a malandragem, o barraco.

Não vejo motivo algum, sólido e coerente de verdade, sem idéiazinhas nacionalistas imbecis, para qualquer ser humano se orgulhar da porra de um amontoado de barracos cercado de traficantes.

Será mesmo que um brasileiro que curte a Regina Casé, ao passar pela linha amarela, olha para o lado, vê aquele monte de favelas, sorri e diz "Ah, esse é o espírito brasileiro", depois desvia a cabeça de uma bala que está passando ali, casualmente? Ou fica cagado de medo?

Favela não é paisagem. Quando é que vão entender isso?