8 de jun de 2007

Mitologia Urbana Vol I - Cap. XVI: A Bichinha Pobre

Nas cidades brasileiras existem famosas figuras míticas, que não são o Boitatá nem o Curupira também não aparecem nas histórias do Monteiro "preciso urgente de uma pinça" Lobato, mas surgem constantemente nos contos de mesa de bar. Alguns são engraçados, outros, obscuros e assustadores. Podemos citar aí o famoso taxista malufista, o tio de bigode do balcão de padaria suja, o doido/mendigo nouvelle vague da rua e a velha que junta lixo em casa e mora com 58 gatos sarnentos. Sim, estas figuras estão em todas as cidades, fazendo parte do colorido folclore urbano.

Estou aqui, às vésperas da parada gay, mais especificamente para explicar esta personagem que figura um papel alegre, saltitante e quiçá bizarro pelas ruas, shoppings e salões de cabeleireiros do bairro: A Bichinha Pobre.

A Bichinha Pobre é uma criatura sofrida. Ela tem uma vida difícil no subúrbio, criada pela avó em uma casa de dois cômodos. A Bichinha Pobre tem sonhos. Sonhos de amor, sucesso e brilho. Tudo o que a Bichinha Pobre quer é brilhar nessa vida.
Ela faz curso de tinturista/cabeleireiro na Embellezze e sabe que na vida é preciso dar duro para alcançar seus sonhos. A trilha sonora da Bichinha Pobre é composta por Britney Spears (momento brilho), Calypso (momento "pra dançar ") e Maria Bethânia (momento quero um amor sincero), que ela ouve no cd player britânia em seu quarto, abraçada com seu coelhinho de pelúcia, comprado no semáforo.

A Bichinha Pobre se monta, lógico. Ela quer mostrar a que veio no mundo. Blusinha baby look mostrando a barriga, calça "stréxi" cós baixo, tênis multi-colorido de camelô. Em sua camiseta justa, a Bichinha Pobre leva no peito dizeres como "Glam Girl", "Sweet Love" e "Beach Surf Baby" compradas na lojinha do calçadão. Boné "Van Dach" na cabeça, pulseirinhas coloridas no braço. Também se cuida, lógico. Banhos de creme no cabelo repleto de reflexos loiros, com o pote de 5 quilos de "Coquetel de Frutas". O perfume é um genérico de Azarro ou Hugo Boss, que se chama Arrazo ou Huigo Goss, "mas a embalagem é igualzinha! O cheiro tamém!".
Bichinha pobre saltita, não anda. Pelos corredores dos shoppings, rebola "moito" enquanto olha as vitrines e sonha "um dia vou comprar tudo isso aqui ó!". Vai ao cinema "Ai, Brédi Piti é tudo de bom!". Bichinha pobre adora tirar fotos, faz pose com a mãozinha no rosto, lânguida e pura. Ou sabe ser sensual, mostrando seu traseiro e fazendo cara de "loosho e poder" e retocando o gloss.

A língua presa e a voz esganiçada não impedem a Bichinha Pobre de contar seus "causos" no salão. Inicia suas histórias com "ai bein cê num sabe". Envolvendo vizinhas barraqueiras, frentistas de posto e um paquera do forró, a Bichinha revela sua vida entre uma escova e um secador de cabelo.
Movimentos femininos exagerados, mãozinha mole que sempre acaba na cintura.
Bichinha tem um amor não correspondido por um homem superlativo "Carlão" "Zezão" "Marcão". Gosta de homens másculos e grandes, que não dão atenção a ela, por mais que passe na frente do bar se chacoalhando toda. E Bichinha pensa "não sabe o que tá perdendo".

Mas Bichinha Pobre nasceu para brilhar. E brilha como porpurina rosa choque. Domingo, as ruas de São Paulo estarão cheias delas. Saltitando com as blusas multicoloridas, com o gloss nos lábios, cheirando a perfume barato, abraçando todo mundo, tirando mil fotos, dançando sem parar pendurada no cangote de um "gringo".

Domingo, o dia é delas. Essas figurinhas sapecas merecem a homenagem.


Bichinha Pobre solta na natureza.