5 de jun de 2007

Na betoneira

Lá está você, mocinha, a caminho do trabalho. banho tomado, lindinha e cheirosa. Caminhando pelas calçadas nojentas, pulando os presentes que os cachorros deixam pelo chão, desviando de sacos de lixo fedorentos. O dia está ensolarado, shiny happy people. Eis que você passa pela "obra". Lá estão eles. Os pedreiros. Os homens dos tijolos, pás, cal e cimento. A maioria não tem dentes. Eles olham para você, para seu cabelo, pra suas intimidades. Você sabe que algum deles vai dizer alguma coisa. Ou todos. É assim, uma regra inquebrantável do universo, como o som não se propaga no vácuo, um pedreiro há de falar alguma coisa para você. Mas, se não mais que de repente, ao invés de você simplesmente passar reto sentindo-se ofendida ou dando risada sozinha (alguns pedreiros têm senso de humor aguçado), imagine outras situações.

E se... Versão: O pedreiro galanteador.


Mostrando quem manda no babado.

O pedreiro, mexendo no cimento, no meio da calçada, desfere:

- Ô coisa gostosa!

Você calmamente pára. Vira-se. Pega um pedaço de madeira, acerta na cabeça dele ferozmente, que cai sobre o cimento mole. Dá mais uma paulada nos rins do infeliz, que geme, com a boca cheia de cal. Liga a betoneira, e despeja 38 quilos de cimento em cima do trabalhador da construção civil. Dando uma risada maléfica, chacoalha o pedaço de madeira no ar enquanto diz para os outros pedreiros, catatônicos:

- Quem aqui vai me encher agora? Alguém? Hã? ALGUÉM?

Quem diria?

O pedreiro, levando uma carriola, diz:

- O benzinho, coisa mais linda, que dilícia!

Você pára. Vira-se. Sorri:

- Oi! Você me acha uma delícia?

- Há?

- Ué, não estava falando comigo?

- Tava...

- Então! Eu sou uma delícia e meu nome é Marina! Qual é o seu?

- Josenildo.

- Josenildo! Posso te chamar de Nildinho?

- Há, fica à vontade moça!

- Nildinho, adoro pedreiros, acho todos muito másculos.

- Eita!

- Olha, a gente pode ir ali no carrinho de tapioca conversar um pouco melhor, se conhecer...

- Opa, tamos aí!

- Ótimo. Podemos ir de mãos dadas?

Dá um beijinho na bochecha do sujeito, enquanto passa a mão no peito dele, sensualmente, lambendo os beiços.

Meu papel na sociedade.

O pedreiro quebra um pedaço da parede com uma marreta. Enquanto você passa ele pára. Seca seu traseiro descaradamente e diz:

- Hmmmm, coisa boaaaaaa!

Você olha para ele firmemente e fala:

- Você me ofende com esse comentário de forte cunho sexual. Não acho correto manter essa atitude com indivíduos que o senhor não conhece e que não lhe deram a liberdade para tal. Me respeite, faça o favor.

O pedreiro caminha em sua direção, tira o capacete alaranjado, olha em seus olhos, enquanto explica calmo e sereno:

- Minha senhora. Eu, enquanto trabalhador terceirizado, posso ser considerado profissional liberal. Meu ambiente de trabalho, portanto, abrange este terreno sobre o qual pisamos agora. Mesmo estando teoricamente em um espaço público, eu como pedreiro e você como passante, mantemos uma conduta lógica quanto aos comportamentos de praxe. A senhora pode, assim, me dizer que é advogada, que dentro de sua carreira, segue uma série de comportamentos comuns aos advogados. Entenda assim que eu sigo o comportamento esperado de um pedreiro. Eu assento uma parede, derrubo um muro, faço cimento, e no meio tempo, digo impropérios às moças passantes. Na verdade, não estou fazendo isso com o intuito de ofendê-la, e sei que nenhuma das mulheres que eu elogio, por assim dizer, responderão às minhas investidas de cunho sexual. É uma seqüência de fatos que se resumem em costumes rotineiros que passam desapercebidos dentro da realidade social das grandes cidades.

O pedreiro dá meia-volta, pega a marreta e continua a quebrar a parede, enquanto você liga para seu psiquiatra agendando uma consulta de emergência.


Elaiá, laiá laiáaaa. Ô princesa, vem cá, tô construindo teu castelo!