Esta sexta-feira, final de tarde, peguei um táxi. O taxista era um gordinho que usava uma camiseta escrita "Canabis" atrás, assim mesmo, com erro de grafia. Eu geralmente evito conversar coisas do tipo "tá quante né?" com taxistas então preferi ficar quieta. Parada nesse trânsito gostoso de Sampa, um grupo de rapazes passava a pé próximo ao táxi, conversando animadamente. Depois que o táxi voltou a andar, o gordinho comentou:
- Pobre é foda né?
- Porquê? - perguntei estranhando o comentário.
- Ah meu, cê viu os malandros ali conversando? Os caras tavam dizendo que iam viver de processo, só de processar os patrões, coisa de vagabundo pobre.
- Ah mas isso não é coisa de pobre não, conheço muita gente que não é pobre e vive de processo - respondi.
- Isso coisa de nego que não quer trabalhar.
Aí, andamos mais alguns metros e paramos em frente a uma concessionária de motos. Olhei e comentei:
- Caramba, que moto feia.
O taxista olhou e falou:
-É, essa é feia mesmo. Eu quase comprei uma dessa marca, tu gosta de moto?
- Gosto mas não sei dirigir.
- Eu tenho 3 motos e quero comprar mais uma.
Fiquei quieta pensando "esse cara adora contar uma vantagem".
A conversa continuou, falamos sobre a vida, sobre o trabalho dele. Acabei descobrindo que ele era dono sozinho de 5 táxis, frota própria espalhada na cidade.
O sujeito além de dono de frota de táxi era, pasme, MC do famoso grupo de rap Racionais MC's. Pelo caminho disse que estava programando uns shows que aconteceriam à tarde, durante a semana.
- Pra estudantes? - perguntei.
- Nada, pra bandido mesmo, vagabundo que não trabalha, esse é nosso público. - disse ele rindo.
Por mais meia hora que circulamos ele contou como fazia grana com seus táxis e que de vez em quando faz um troco vendendo bebidas nos shows.
O sujeito, mesmo com toda a carga "cultura de periferia", principalmente cantando em um grupo de Rap, sabia que trabalhar é o que gratifica. Em nenhum momento ele se fez de coitado culpando a burguesia. Muito pelo contrário, ele gostava de contar até uma certa vantagem em possuir seus bens materiais. Fiquei imaginando como será que ele se via. De fora será que ele se acharia um "das elite"?
Claramente, vagabundo e bandido ele não era. Mas como se comunicar e cantar para pessoas que ostentam essa cultura da bandidagem?
27 de out. de 2008
Tamo tudo envorvido
Escrito por Sarah às 15:04
Labels: vida urbana
16 de jan. de 2008
Toma um Serenus

Sabe aflição? Aquela sensação que aparece de repente e você não consegue controlar seus arrepios de raiva?
Escrito por Sarah às 16:46
Labels: Confissão, Vida, vida urbana
9 de out. de 2007
De que lado você está
Semana passada o apresentador da Globo Luciano Huck foi surpreendido por assaltantes enquanto saía de um restaurante. Os criminosos queriam seu relógio. Cena comum aqui no Brasil, e que cada vez mais, tem se tornado suportável porque neste país se tem a mania de perdoar o "problema" do criminoso e não punir sua criminalidade.
O rapper paulista Férrez (Reginaldo Ferreira da Silva), do qual eu nunca ouvi falar, apareceu agora dizendo que o bandido que ameaçou a vida de Luciano por um relógio estava certo.
Vejamos suas palavras em carta enviada pelo rapper para o jornal O Dia: “O assaltado, que ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o ‘correria (forma como trata o assaltante), que ficou com o relógio. Não vejo motivo para reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo para as duas partes”.
Férrez, veio do Capão Redondo e diz que na sua "quebrada" o relógio de Luciano Huck dá pra comprar várias casas. E te pergunto Férrez: E DAÍ? O cara trabalhou e comprou o relógio com o dinheiro dele. Não conheço o Luciano, mas mesmo que ele fosse o Zé das Couve, um cidadão tem o direito de COMPRAR o que quiaser, pelo preço que quiser. SE o cidadão está com vontade de entrar no Capão Redondo e dar casas de presente para o pessoal de lá, CONTINUA SENDO PROBLEMA DELE. E se ele comprar mil casas para pobres, ele também NUNCA MAIS poderá usar um relógio caro? É isso Férrez? Seu "mano" ali "das quebrada" é bandido e tinha que ser preso. Quem comete crimes Ferréz, não está "na correria". Está na bandidagem.
É fácil: justifica-se a criminalidade com o fato do sujeito ser pobre. E aqui no Brasil, estão perdoando bandidos ou dizendo que é correto roubar dos "ricos". Veja bem, não importa que esse rico nunca tenha feito nada contra lei, ou que ele pague seus impostos ou até mesmo que ele seja um profissional de sucesso. O que importa é que ele é rico, e ser rico aqui é o crime.
O preço do relógio de alguém não justifica a bandidagem. O que se faz aqui é achar que todo e qualquer ser humano que nasce pobre está fadado a ser bandido. Esse é o destino dele? "Pobre nasce na favela, na periferia e vê gente morrendo desde quando se entende por gente". "Quem cresce na criminalidade vira criminoso". Vamos fazer uma coisa? Vamos parar de achar que quem nasce pobre é diferente? Pobre é gente. Humano. Raciocina. Pensa. Pobre não é um computador programado para absorver o que inserem nele. Isso é basicamente duvidar da mínima capacidade humana que nos separa dos animais. Daquilo que nos coloca acima de toda cadeia evolucionária.
Se você pensa como o rapper Férrez, está tratando pobre como uma categoria abaixo da do ser humano. Está impondo que eles são suscetíveis e irracionais. Um miserável que vê tanta morte que acha normal morrer. Pera aí! Olhemos para os indivíduos como seres humanos antes de olhar para o meio que ele vive. O que está acontecendo é que o criminoso se esconde nessa "casca" de "vítima do sistema" para justificar suas ações criminosas. Na verdade, o criminoso sabe muito bem que pegar uma arma e ameaçar uma pessoa não é uma coisa certa. Ele justifica isso dizendo que é "vítima do sistema" porque alguém ensinou isso pra ele. E quem foi? Quem ensina a um bandido como usar sua miséria para justificar seus erros?
Pessoas como Férrez. Pessoas que acham que o mundo é "indefensável"(que não tem ou não mereça defesa). Que pobre pode roubar rico, porque todo mundo que tem dinheiro é automaticamente filho da puta.
Pra mim, certas coisas são bem mais simples. Bandido é quem comete crime, independente se ele é pobre, rico, classe média, mendigo, vesgo ou banguela. Se "mano" é bandido, se no assalto, a vítima pode "ficar viva" como prêmio, e Férrez (e muita gente por aí) achou que o rolo "foi justo", quero dizer a este rapper e a essas pessoas que elas duvidam demais da capacidade humana. Impõem que pobre tem o direito natural de roubar. E isso é muito, muito feio.
Pra mim, nenhum ser humano tem ( nem merece) o direito natural de roubar.
Já vieram me falar de "instinto de sobrevivência" o que seja, eu acho que essa coisa de "instinto" é animalesco. É selvagem. E quem nasce em Capão Redondo não é bicho, é gente, certo?
Escrito por Sarah às 14:22
Labels: Brasil, Comportamento, Revolta pessoal, vida urbana, Violência
31 de ago. de 2007
E eu nunca mais passarei fome novamente
Certos acontecimentos me tocam de maneira estranha. Eu sou uma moça que acorda cedo, trabalha e que, no fim do dia volta pra casa para assistir tv a cabo de pijama, com a cachorrinha no colo. Meu dia-a-dia não parece reservar acontecimentos muito extraordinários. Mas ele reserva. Eu atraio naturalmente eventos incomuns e estranhos. Talvez eu somente preste mais atenção em coisas que pessoas geralmente ignoram.
Estes dias eu entrei no ônibus, volta pra casa. Não estava lotado (ufa) e eu pude me sentar em um banco, próximo à saída. Quando me dei conta, havia uma senhora bêbada e louca sentada na escada do ônibus. Ela berrava alguma coisa e eu liguei o mp3 e esqueci do mundo. Até que a velha berrou tão alto que eu olhei para o lado. Eis que a mulher solta uma golfada de vômito no chão. Arroz regurgitado.
Nesta hora milhões de coisas passaram pela minha cabeça. "O que essa tia bebeu?" "Onde ela vai com essas trocentas sacolas?" "Porquê diabos ela TEM que vomitar aqui?" "Eu tinha logo que entrar neste ônibus?".
A vida tem dessas coisas. Mas eu pondero. Eu tento ver além. "Um dia eu terei uma vida mais digna e darei risada destes momentos". Na verdade, logo depois eu ri em casa, mas na hora foi podre.
O triste foi na hora de descer no meu ponto e atravessar aquele mar de suco gástrico e comida semi-digerida. Existem dias que você vê um lindo bebê sorrindo na rua. Em outros, uma mendiga vomita do seu lado.
A vida não poderia ser de outra forma, mesmo.
Escrito por Sarah às 16:02
Labels: Baixaria, Comportamento, vida urbana
14 de ago. de 2007
Quem cala consente
Sábado estava em uma loja com meu irmão. Enquanto ele olhava os DVD's fui me esbaldar na seção de maquiagens. Por quê batom e sapatos nunca são demais? Por quê eu tenho 6 batons vermelhos iguais, mas diferentes?
Bom, voltando à situação, eu vi um batom lindo da Maybelline que estava em promoção. Uma etiqueta vermelha saltando fora da gôndola anunciava R$6,99. Pensei "Uau, seis reais, que barato!"
Sim, se eu vejo o noventa e nove arredondo para menos como todos os lojistas querem que eu faça. Coloquei o batom na minha cestinha. Dei mais uma volta pela loja, peguei mais umas porcarias e fui pagar no caixa. Quando a mocinha de coque nos cabelos passou o batom olhei para o preço que acusava na telinha. R$ 14,99. Hã?
- Eh, com licença, não é esse o preço que apareceu na prateleira.
- Não? A senhora quer que eu chame o rapaz para conferir?
- Por favor. Na prateleira mostrava seis e noventa e nove, por isso eu peguei.
O rapaz chega. Vai e volta com meu batom na mão.
- É, está seis e noventa e nove.
A moça do caixa:
- Mas está registrado na leitura outro valor, vou chamar o gerente.
O gerente com o cabelo penteado com gel pra trás chega. Pega o produto. Passa no leitor eletrônico. 14,99. Olha pra minha cara. Eu digo:
- Olha tem outro valor marcado lá.
O gerente se dirige à seção de maquiagem. Eu vou atrás. Preciso confirmar que não sou mentirosa e que não gosto de ser enganada.
Vejo de longe a etiqueta R$6.99. Já sorrio pensando algo como "bom, devem ter esquecido de registrar a promoção no código". O gerente olha a etiqueta. Olha o batom. Olha a etiqueta de novo. E olha pra mim:
- Olha, aqui na etiqueta está escrito seis e noventa e nove, mas embaixo, se a senhora tivesse lido, veria que este preço só é válido para a cor "rosa malva" e essa que você quer comprar se chama "Coral".
- Hã, escrito onde?
- Aqui ó.
E aponta para letras minúsculas, onde algo está escrito de maneira ilegível e abreviada para que, caso você consiga ler aquilo com uma lupa, ainda não desvende o que quer dizer.
- Mas isso está errado. Vocês deviam ter anunciado que a promoção só era válida pra uma cor específica. Eu não consigo ler estas letras e está tudo abreviado. O que quer dizer "ba. ma. ros.mau"?
- Batom Maybelline Rosa Mauve.
- Mas porque vocês não explicam melhor?
- Está na etiqueta, era só olhar.
- Mas... Isso não está claro para mim. Eu sou uma pessoa alfabetizada, fiz faculdade, e não entendo o que diabos quer dizer "bamarosmau". Isso não significa nada. Vocês inventaram uma língua específica aqui dentro da loja? Vocês falam nesta língua única e especial entre si? Eu tenho que aprender esta língua pra fazer compras na loja? Eu sou analfabeta no idioma que você inventou, desculpe.
- A senhora ainda quer levar o batom?
- Eu não sei. Só acho que vocês podiam ser mais honestos com os clientes.
- Está escrito na etiqueta.
- Mas... Hã?
Minha vontade era de dizer "você acha que eu tenho cara de idiota?".
Mas sabe, fiquei com medo da resposta.
Provavelmente seria "Acho".
PS: Oh sim, eu levei o batom. Apesar de tudo, é um tom de vermelho que eu ainda não tenho. Agora tenho 7 batons vermelhos na minha caixa de maquiagem. Ei, eu juro, são vermelhos mas diferentes entre si! Ou não. Ah, deixa pra lá.
Escrito por Sarah às 00:19
Labels: consumo, vida urbana
25 de jul. de 2007
See no evil, hear no evil
Quando você pensa que está absolutamente sozinho, não está. Principalmente se mora em uma cidade grande. Eu sofro pois mantenho manias solitárias.
Tenho mania de chegar em casa e ficar andando de calcinha trajes íntimos. Faço isso quando estou só, obviamente. Não ficaria de calcinha assim o tempo todo na frente do meu bofe porque senão a pessoa enjôa, e passa a olhar para minha bunda como se olhasse para o abajour. Acho que é preciso manter uma certa distância da rotina. Mas isso não vem ao caso. Eu moro em frente a um grande cruzamento, de grandes prédios altos também. E muitas vezes esqueço do mundo lá fora, abro uma cerveja, ligo o som e fico fumando pela sala. Até que percebo que há um vulto humano no prédio em frente. Com algo que se assemelha a um binóculo nas mãos. E que está voltado para minha janela. Que puto. Faço um sinal obsceno, fecho a janela correndo, sentindo uma vontade enorme de ter uma sniper e acertar a cabeça do vagabundo. Agora, só ando despida com a janela fechada.
Outra mania minha é falar sozinha. Falo sozinha o tempo todo. Converso com a geladeira, faço perguntas a mim mesma e respondo. Imito pessoas, faço vozes, dou risadas de piadas mentais. Faço isso em qualquer lugar e às vezes acontecem coisas inesperadas. Lá estou eu no mercado, prateleira de azeites:"Porra, que troço caro! Quase vinte reais! E esse azeite Maria aqui? É vagabundo. 499ml de óleo de soja e 1ml de azeite. E o povo cai nessa porque é barato. Lançaram até com sabor de alho. Deve ser uma merda". Falo isso na altura normal que conversaria com uma pessoa. Eis que uma senhora pára do meu lado "filha, você está falando comigo?". Eu olhei pra ela e apontei para os fones de ouvido que usava no momento, como se isso respondesse a pergunta. "Não?". A velha se desviou rapidamente para a prateleira de molho de tomate. Ontem no ponto de ônibus, o maldito busão não parou quando eu sinalizei. Eu disse "Páraaa, pára! Não vai parar vagabundo? Se eu tivesse uma arma agora atirava da roda deste miserável filho de uma puta". E quando me dei conta, sete pessoas davam gargalhadas atrás de mim.
E minha mania de esquecer de câmeras de segurança em prédios. Eu e minha amiga no elevador: Eu digo "Nossa fia, comprei um sutiã ótimo!" E levanto a blusa. "O bojo sutenta super bem olha só, posso pular que segura". E pulo. E ela "Sarah, a câmera".
Avemariacheidigrassa!
Escrito por Sarah às 16:12
Labels: Comportamento, vida urbana
12 de jul. de 2007
Ao vinagrete
Em um bar "de espetinhos" qualquer, São Paulo, cerca de 23h. Sentada com um grupo de amigas, tomando chopp e rindo de besteira.
Eis que algum galanteador de plantão resolveu nos mandar um presente na mesa. Tem homem que manda drink, outros flores e até bilhetinhos. Mas esse não.
O sujeito nos mandou um prato com "espetos doces".
Que troço mais pobre.
Eu, que já estava alegre, olhei e disse alto "Poxa amigô, eu estou tomando chopp, manda uns espetinhos de lingüiça , um pãozinho de alho, hã? Pra acompanhar aqui. Faz o favor".
Tá eu sou chata, eu sei. Mas olha as coisas que acontecem comigo.
Espetinhos? Pqp.
PS: Este post foi sugestão de um amigo meu. Ontem eu contei a história pra ele, que disse "mas todos os dias da sua vida rendem um post, hein". Pois é Ruy, eles rendem.
Escrito por Sarah às 15:33
Labels: Cafonice, Homens, Relacionamentos, vida urbana
10 de jul. de 2007
Pombando
Agora há pouco, eu na rua com minha amiga. Fomos almoçar em uma padaria. O único lugar vago era uma mesinha na calçada. Eu não gosto de me sentar na calçada porque há muito barulho de trânsito e pessoas passando ao meu lado, que, invariavelmente, olham para ver o que eu estou comendo. E isso é desagradável.
Mas enfim, eu estava faminta e com pressa. Fizemos os pedidos.
Eis que ela me aparece. A maldita pomba manca.
A pomba tinha uma pata atrofiada e outra normal. Andava toda torta, catando lixo do chão. Descendo para o meio da rua. Voltando pra calçada. Eu não conseguia parar de olhar para maldita pomba. Revirando minha cabeça , eu visualizava o passado da pomba, batalhadora e manca, havia conseguido chegar até ali, no Itaim Bibi. Venceu na vida. A pomba manca é a prova viva de que "quem tem um sonho chega lá". Mas a pomba nada mais é que um pássaro imbecil, que é conhecido como "rato voador". E é imbecil, já disse. A pomba ficava a poucos centímetros de ser atropelada por ônibus e motos. E aquela patinha defeituosa. Ela se arrastava e o ônibus bi-articulado quase a esmagava. Eu olhava a pomba sem parar. Mordendo a ponta dos dedos. Virando a cabeça para não ver a tragédia. Cutucando o saleiro para ver se me distraía com outra coisa.
Começou a me dar nervoso, faniquito, vontade de berrar "porra pomba idiota, morre logo ou sai daí". E passei meu almoço paranóica com uma pomba manca.
Eu preciso de férias. Urgente.
Escrito por Sarah às 15:12
Labels: vida urbana
25 de jun. de 2007
Um lençol e dois furos
Fantasmas. Todo mundo tem alguma história ou conhece alguém que conhecia alguém que viu alguma coisa estranha. Os mortos que não querem aceitar a morte, não caminham em direção à luz, pimba, ficam presos aqui nesse mundo, inconformados.São, em sua maioria, pessoas que morreram de maneira trágica, e além disso, querem se vingar, fazendo coisas idiotas.
Idiotas, sim, pense um pouco,fantasmas são chatos. Eita bando de espírito chato. Sem graça. Sempre aparecem para famílias que mudam-se felizes para uma casa antiga e mal sabem o que as esperam. Sempre um molequinho ou uma menininha. Uma velha que chora. Um homem estranho de chapéu. Fantasmas de atrizes pornôs que morrearam engasgadas com objetos estranhos, ah, essas nunca aparecem para a tristeza dos marmanjos.
E fantasma é sempre aquela coisa sem graça. Faz um vento, dá uma risada, som de correntes. Bate portas, esconde coisas. Mas vem cá, se você pudesse vagar a esmo pelo mundo, tem certeza que se preocuparia em ficar arranhando portas? Tipo, depois de existir nesse mundinho besta, se tivesse a oportunidade de ser absolutamente livre, para ir e vir, ia mesmo causar interferências na TV e encher o saco de menininhas loiras de cinco anos de idade? Não tem nada melhor pra fazer com sua eternidade na Terra?
Uma coisa me faz pensar: Se fantasmas existissem mesmo, imagine a quantidade de lugares assombrados que existiriam neste planeta. Por cálculos, eu suponho que trilhões de pessoas já morreram desde que o homem apareceu por aqui. E nem todas devem ter morrido de uma forma pacífica.
Se você estiver sentado em uma praça, imagine que em 1937, logo no banco que descansa, um cara foi degolado violentamente. E ao lado dele, um índio que em 1285 foi atacado por uma jaguatirica assassina.Naquela praça portanto, vagam cerca de 300 almas penadas que morreram por ali, em diferentes tempos. A cidade inteira estaria tomada pelos espíritos zombeteiros.
Eles, superpopulosos, pisam uns nos outros, tendo diálogos irritados entre si.
Esquina da Rua Jatobá com a Av. D.Pedro, meia-noite.
Mulher que perdeu os filhos na enchente e se matou em 1946 diz em voz espectral:
- Galera, eu fiquei de assombrar esta parte aqui da rua, tá marcado na agenda!
Negão véio assassinado por um carrasco da senzala em 1759, voz de dar frio na espinha:
- Opa, opa peralá peralá, ontem a senhora ficou aqui, hoje sou eu. Eu sou mais velho, prestenção óia o respeito!
Molequinho sem as pernas, atropelado pelo bonde em 1925, voz fina que corta o vento:
- Eiii gente, só porque eu sou cotoco vocês me excluem, este pedaço da calçada é meu também, minhas pernas voaram bem aqui ó! Ó! Eu sou deficiente!
*****
Me poupem. Só vê fantasma quem acredita. Assim como quem vê que a competência Lula porque acredita no PT. É tudo crendice.
Escrito por Sarah às 16:44
Labels: Morte, vida urbana
24 de jun. de 2007
Smoke on the water
Em um mundo onde as pessoas estão cada vez mais politicamente corretas e cada vez menos permissivas à individualidade, os fumantes estão acuados.
Eu, como fumante, sinto-me obrigada a aceitar mil coisas enquanto tento fazer as pessoas apenas entenderem que fumo porque quero e é um direito meu. Regra única: Eu não forço ninguém a fumar, então porque os não fumantes enchem a paciência dos viciados em nicotina, falando barbáries para pararmos? Que diabos?
Quando vejo uma gordona se entupindo de coxinha e coca-cola eu não chego nela e digo "ei, você vai morrer com isso sabia?". Ou chego lá e falo "ei, deviam colocar fotos nojentas de artérias entupidas em todo lugar que vende pastel". Pois deviam, não é? Mas que porra.
Eu em um bar, certa vez, sentei me ao lado da janela. Perguntei ao garçon se podia, e com permissão concedida, acendi meu cigarro e coloquei o braço pra fora. Ventava bastante, estava frio, mas não queria incomodar as pessoas. Eis que a uns cinco metros, a mesa ao lado é ocupada por 3 mulheres. Todas, sem exceção, usavam uma quantidade de perfume exagerada. Era um cheiro de perfume paraguaio tão forte, que eu me sentia caída no chão de uma loja de perfumes em Assunção. Eu estava enjoada, e tão enjoada que nem a cerveja descia direito. Parecia que eu virava uma garrafa de Giorgio Beverly Hills goela abaixo. Mas é clima de buteco, e eu estava bêbada o suficiente para não me importar. Eis que ouço a mulher reclamando do cigarro "ai é um absurdo isso, falta de respeito, vou reclamar com o gerente". O bar era tão tosco que o gerente devia ser o chapeiro. Elas ficaram olhando feio pra minha mesa, e chamaram o garçon. Ele me entregou um bilhete, assinado pelas três mal-amadas, falando que eu era sem-educação e não tinha respeito pelos não-fumantes. Eu sou uma lady, até onde a paciência permite. No entanto, bêbada que estava, olhei para mesa delas e disse "Pois é, pelo menos meu Marlboro é original. O fedor de perfume falsificado que as senhoras exalam é tão forte, que eu devia chamar a vigilância sanitária". Lançaram a grande cara de cu para mim, mudaram-se de mesa.
Outro dia, eu no ponto de ônibus, avenida movimentada, pico do rush. Carros, caminhões e ônibus soltando aquela fumaça preta na cara de todo mundo, eu com os olhos lacrimejando e tentando não respirar muito freqüentemente, porque o gosto de diesel gruda na boca e não sai. Aí, com aquela zona e ônibus que não chega, eu acendi um cigarro para relaxar. Lembrem-se eu estava a céu aberto. Não era um cubículo fechado e sem janelas. Era no meio da rua. Aí um casalzinho telemarketing (não me perguntem, atendente de telemarketing tem cara de atendente de telemarketing), começou a chiar. Lá eu, me segurando. Eu não joguei merda neles, eu não catarrei no cabelo da moça, eu não urinei no sapato do cara. Eu não matei uma ninhada de gatinhos na dentada. Eu simplesmente acendi um cigarro. E ficaram lá se abanando, a mocinha fazendo caretas, o rapaz tossindo. Eu olhei pro cigarro e falei alto, sozinha: "Todo mundo respirando a fumaça de 400 carros por segundo, e as pessoas reclamam de um cigarro. O mundo está cheio de imbecil". O casal fez cara de cu, e afastou-se de mim.
Eu fumo. Tem gente que toma laxante e caga até as tripas pra não engordar. Tem gente que come meleca de nariz. Tem tanta gente nesse mundo fazendo coisas que não são saudáveis, mas é direito delas fazerem. O mundo não tem direito de tratar o fumante como um assassino criminoso. E é assim que querem que as pessoas se sintam?
Eu não permito que me desreispeitem porque não desrespeito ninguém. Agora, não se intrometam nos meus pulmões. Existem regras de etiqueta para fumantes. Eu obedeço todas elas. Deviam ter leis para os não-fumantes insuportavelmente chatos.
Escrito por Sarah às 18:48
Labels: Comportamento, Revolta pessoal, vida urbana
14 de jun. de 2007
Soundtrack
O Mp3 player é uma invenção fantástica. Quem diria que aquele troção que tocava fitas, depois cd's, se resumiu a uma peça pequena do tamanho de um isqueiro?
Tá, não é nenhuma novidade este meu comentário, só estou pensando em como isso facilita as coisas para que sua vida tenha uma trilha sonora todo o tempo. Tudo o que você faz vira um videoclipe, mesmo que pareça o clip mais imbecil do mundo.
Eu estava pagando o cobrador do ônibus, que olhava para meu decote como se fosse uma prato de feijão e farofa. No player, com os fones na minha cabeça "Deeper and Deeper" do Barry White.
Mas que diabos?
Eu dou risada.
RanXerox. Nada ver, só deu vontade de colocar aqui. Sou uma pessoa transtornada. Siempre.
Escrito por Sarah às 22:44
Labels: Música, vida urbana
8 de jun. de 2007
Mitologia Urbana Vol I - Cap. XVI: A Bichinha Pobre
Nas cidades brasileiras existem famosas figuras míticas, que não são o Boitatá nem o Curupira também não aparecem nas histórias do Monteiro "preciso urgente de uma pinça" Lobato, mas surgem constantemente nos contos de mesa de bar. Alguns são engraçados, outros, obscuros e assustadores. Podemos citar aí o famoso taxista malufista, o tio de bigode do balcão de padaria suja, o doido/mendigo nouvelle vague da rua e a velha que junta lixo em casa e mora com 58 gatos sarnentos. Sim, estas figuras estão em todas as cidades, fazendo parte do colorido folclore urbano.
Estou aqui, às vésperas da parada gay, mais especificamente para explicar esta personagem que figura um papel alegre, saltitante e quiçá bizarro pelas ruas, shoppings e salões de cabeleireiros do bairro: A Bichinha Pobre.
A Bichinha Pobre é uma criatura sofrida. Ela tem uma vida difícil no subúrbio, criada pela avó em uma casa de dois cômodos. A Bichinha Pobre tem sonhos. Sonhos de amor, sucesso e brilho. Tudo o que a Bichinha Pobre quer é brilhar nessa vida.
Ela faz curso de tinturista/cabeleireiro na Embellezze e sabe que na vida é preciso dar duro para alcançar seus sonhos. A trilha sonora da Bichinha Pobre é composta por Britney Spears (momento brilho), Calypso (momento "pra dançar ") e Maria Bethânia (momento quero um amor sincero), que ela ouve no cd player britânia em seu quarto, abraçada com seu coelhinho de pelúcia, comprado no semáforo.
A Bichinha Pobre se monta, lógico. Ela quer mostrar a que veio no mundo. Blusinha baby look mostrando a barriga, calça "stréxi" cós baixo, tênis multi-colorido de camelô. Em sua camiseta justa, a Bichinha Pobre leva no peito dizeres como "Glam Girl", "Sweet Love" e "Beach Surf Baby" compradas na lojinha do calçadão. Boné "Van Dach" na cabeça, pulseirinhas coloridas no braço. Também se cuida, lógico. Banhos de creme no cabelo repleto de reflexos loiros, com o pote de 5 quilos de "Coquetel de Frutas". O perfume é um genérico de Azarro ou Hugo Boss, que se chama Arrazo ou Huigo Goss, "mas a embalagem é igualzinha! O cheiro tamém!".
Bichinha pobre saltita, não anda. Pelos corredores dos shoppings, rebola "moito" enquanto olha as vitrines e sonha "um dia vou comprar tudo isso aqui ó!". Vai ao cinema "Ai, Brédi Piti é tudo de bom!". Bichinha pobre adora tirar fotos, faz pose com a mãozinha no rosto, lânguida e pura. Ou sabe ser sensual, mostrando seu traseiro e fazendo cara de "loosho e poder" e retocando o gloss.
A língua presa e a voz esganiçada não impedem a Bichinha Pobre de contar seus "causos" no salão. Inicia suas histórias com "ai bein cê num sabe". Envolvendo vizinhas barraqueiras, frentistas de posto e um paquera do forró, a Bichinha revela sua vida entre uma escova e um secador de cabelo.
Movimentos femininos exagerados, mãozinha mole que sempre acaba na cintura.
Bichinha tem um amor não correspondido por um homem superlativo "Carlão" "Zezão" "Marcão". Gosta de homens másculos e grandes, que não dão atenção a ela, por mais que passe na frente do bar se chacoalhando toda. E Bichinha pensa "não sabe o que tá perdendo".
Mas Bichinha Pobre nasceu para brilhar. E brilha como porpurina rosa choque. Domingo, as ruas de São Paulo estarão cheias delas. Saltitando com as blusas multicoloridas, com o gloss nos lábios, cheirando a perfume barato, abraçando todo mundo, tirando mil fotos, dançando sem parar pendurada no cangote de um "gringo".
Domingo, o dia é delas. Essas figurinhas sapecas merecem a homenagem.
Escrito por Sarah às 09:44
Labels: Comportamento, povão, vida urbana
5 de jun. de 2007
Na betoneira
Lá está você, mocinha, a caminho do trabalho. banho tomado, lindinha e cheirosa. Caminhando pelas calçadas nojentas, pulando os presentes que os cachorros deixam pelo chão, desviando de sacos de lixo fedorentos. O dia está ensolarado, shiny happy people. Eis que você passa pela "obra". Lá estão eles. Os pedreiros. Os homens dos tijolos, pás, cal e cimento. A maioria não tem dentes. Eles olham para você, para seu cabelo, pra suas intimidades. Você sabe que algum deles vai dizer alguma coisa. Ou todos. É assim, uma regra inquebrantável do universo, como o som não se propaga no vácuo, um pedreiro há de falar alguma coisa para você. Mas, se não mais que de repente, ao invés de você simplesmente passar reto sentindo-se ofendida ou dando risada sozinha (alguns pedreiros têm senso de humor aguçado), imagine outras situações.
E se... Versão: O pedreiro galanteador.
Mostrando quem manda no babado.
- Ô coisa gostosa!
Você calmamente pára. Vira-se. Pega um pedaço de madeira, acerta na cabeça dele ferozmente, que cai sobre o cimento mole. Dá mais uma paulada nos rins do infeliz, que geme, com a boca cheia de cal. Liga a betoneira, e despeja 38 quilos de cimento em cima do trabalhador da construção civil. Dando uma risada maléfica, chacoalha o pedaço de madeira no ar enquanto diz para os outros pedreiros, catatônicos:
Quem diria?
O pedreiro, levando uma carriola, diz:
- O benzinho, coisa mais linda, que dilícia!
Você pára. Vira-se. Sorri:
- Oi! Você me acha uma delícia?
- Há?
- Ué, não estava falando comigo?
- Tava...
- Então! Eu sou uma delícia e meu nome é Marina! Qual é o seu?
- Josenildo.
- Josenildo! Posso te chamar de Nildinho?
- Há, fica à vontade moça!
- Nildinho, adoro pedreiros, acho todos muito másculos.
- Eita!
- Olha, a gente pode ir ali no carrinho de tapioca conversar um pouco melhor, se conhecer...
- Opa, tamos aí!
- Ótimo. Podemos ir de mãos dadas?
Dá um beijinho na bochecha do sujeito, enquanto passa a mão no peito dele, sensualmente, lambendo os beiços.
Meu papel na sociedade.
O pedreiro quebra um pedaço da parede com uma marreta. Enquanto você passa ele pára. Seca seu traseiro descaradamente e diz:
- Hmmmm, coisa boaaaaaa!
Você olha para ele firmemente e fala:
- Você me ofende com esse comentário de forte cunho sexual. Não acho correto manter essa atitude com indivíduos que o senhor não conhece e que não lhe deram a liberdade para tal. Me respeite, faça o favor.
O pedreiro caminha em sua direção, tira o capacete alaranjado, olha em seus olhos, enquanto explica calmo e sereno:
- Minha senhora. Eu, enquanto trabalhador terceirizado, posso ser considerado profissional liberal. Meu ambiente de trabalho, portanto, abrange este terreno sobre o qual pisamos agora. Mesmo estando teoricamente em um espaço público, eu como pedreiro e você como passante, mantemos uma conduta lógica quanto aos comportamentos de praxe. A senhora pode, assim, me dizer que é advogada, que dentro de sua carreira, segue uma série de comportamentos comuns aos advogados. Entenda assim que eu sigo o comportamento esperado de um pedreiro. Eu assento uma parede, derrubo um muro, faço cimento, e no meio tempo, digo impropérios às moças passantes. Na verdade, não estou fazendo isso com o intuito de ofendê-la, e sei que nenhuma das mulheres que eu elogio, por assim dizer, responderão às minhas investidas de cunho sexual. É uma seqüência de fatos que se resumem em costumes rotineiros que passam desapercebidos dentro da realidade social das grandes cidades.
O pedreiro dá meia-volta, pega a marreta e continua a quebrar a parede, enquanto você liga para seu psiquiatra agendando uma consulta de emergência.
Escrito por Sarah às 14:11
Labels: Comportamento, Homens, povão, vida urbana
4 de mai. de 2007
Calibre 38
Não consigo entender muitas coisas nestes país. Não entendo micareta, açaí e o excesso de kombis, por exemplo.
Mas o que me faz girar os olhos, passando a mão no queixo, é a situação do Rio de Janeiro. Eu não consigo entender. Todo mundo lá faz campanha anti-violência, enterra rosas na areia, se veste de preto e grita pelas ruas, fazendo sinal de pombinha da paz. Todo mundo chocado e horrorizado, todo dia tem um motivo (ou mais que um) para as pessoas dizerem "Temos que dar um basta!".
Amigos cariocas. "Basta" está mais pra "bosta". Ninguém faz nada efetivo, percebe? Ninguém. Vocês aí da cidade maravilhosa estão cercado de morros abarrotados de traficantes armados até os dentes. Aí a polícia que é corrupta (ligada a um governo estadual corrupto), entra lá, prende e mata meia dúzia de peixes pequenos e fica tudo bem? É tiroteio, chuva de balas, saraivada de chumbo. O povo atravessando a tal da linha amarela, a linha vermelha, tomando tiro, sendo assaltado, tomando mais tiro, parando em blitz da polícia, e de quebra, toma mais um tiro de raspão. Hã?
O foda são esses morros de favelas bem em cima das vias de acesso e dos bairros residenciais. Os tiros vão voando, caindo, acertando. Até dentro das casas, dentro dos carros, dentro da faculdade. Nem colete a prova de balas serve mais. O tiro vem do nada. Isso é uma das coisas mais freaks que eu consigo conceber em criminalidade. Você lá tomando um suco, sentado, lendo um livro e pum. Uma bala bem na sua nuca. Fim.
O que eu faria? O que acho adequado? Qual a minha vontade?
O impossível: Eu desmantelava todos aqueles morros abarrotados de barracos. Vão me dizer que tem gente de bem, que isso e que aquilo, mas sabe? Essa gente de bem, muita gente de bem, está morrendo. Os morros cruzam tudo que é lugar, e é deles que voam as balas dos bandidos e dos policiais. Eu não entendo, a porra da favela faz parte da paisagem carioca, aquele monte de quadradinhos coloridos, que pra mim parece um lixão; Aí vai a Regina Casé e mostra como a favela é legal. Favela não é legal não, os caras vivem em guerrilha lá dentro, todo o sistema de saneamento é errado e informal (ou seja, muita gente MESMO não paga conta de água), polui pra caralho. O sistema de coleta de lixo é praticamente inexistente. Ali vive todo mundo na sujeira, em meio a merda de gente e gente de merda (vulgo, trafica).
Morro é uma desgraça. A estrutura física do troço é um labirinto, feito de vielas e becos, pra traficante se esconder direitinho e ser acobertado pelos vizinhos. Pra polícia entrar lá dentro e nem saber pra onde começar a atirar.
Façam conjuntos habitacionais decentes, tirem essas pessoas daquele lugar, coloquem elas em espaços onde existam condições de vida. Mas não. As pessoas adoram aquilo. Tem vista pro mar. Acham lindo, faz parte da cultura "da comunidade" do "povo". Não adianta. Tá no imaginário popular carioca, na música, na literatura.
O morro, o malandro, a malandragem, o barraco.
Não vejo motivo algum, sólido e coerente de verdade, sem idéiazinhas nacionalistas imbecis, para qualquer ser humano se orgulhar da porra de um amontoado de barracos cercado de traficantes.
Será mesmo que um brasileiro que curte a Regina Casé, ao passar pela linha amarela, olha para o lado, vê aquele monte de favelas, sorri e diz "Ah, esse é o espírito brasileiro", depois desvia a cabeça de uma bala que está passando ali, casualmente? Ou fica cagado de medo?
Favela não é paisagem. Quando é que vão entender isso?
Escrito por Sarah às 12:46
Labels: Brasil, Revolta pessoal, vida urbana, Violência
31 de jan. de 2007
Fauna e Flora Urbana
Quando eu morava em minha cidade Natal, ia trabalhar todos os dias de carro. Aqui na capital, não tenho carro, moto e nem patinete. Vou de ônibus. Aprender a andar de ônibus não é difícil, o problema é entender as regras de etiqueta do transporte público. E, elas existem?
Nunca vi, portanto, vamos a algumas que eu elaborei ontem, enquanto era encoxada por 3 senhores nada respeitáveis, aspirando o suor do sovaco alheio.
1- No ponto: Ainda no ponto é preciso ter comportamento adequado. Se existem cadeirinhas, favor não ocupá-las com um monte de sacolinhas carregadas de potinhos com feijão, sacolas de feira ou sacolões cheios de cortinas pra lavar. Pacotes não têm bunda, portanto, não precisam sentar-se.
2- Entrando no veículo: Sem correria. Aos homens, favor não ficarem olhando para os traseiros das moças e já escolhendo quem vai encoxar lá dentro. Às senhoras, cuidado com suas trezentas sacolinhas. Aos estudantes, mochilada na cara dos outros não é bacana.
3 - Na fila: Por favor, fiquem com o dinheiro ou o cartão à mão. Procurar moedinha de cinco centavos nu fundo da bolsa, não pode. Principalemnte se houver uma fila com 19 tiazinhas da sacola logo atrás de você, fazendo a mesma coisa. É sacolada e bolsada pra tudo que é lado.
4 - Catraca: Não tente passar junto com as sacolinhas ou mochilas. Uma coisa por vez senão a catraca emperra, e nós ficaremos presos para sempre no universo paralelo das sacolinhas do carrefour repletas de tupperware. Com feijão dentro.
5 - Ao sentar-se: As cadeiras reservadas têm esse nome porque se reservam à pessoas em condições específicas. Não adianta enfiar a sacola debaixo da blusa e dizer que está grávida, ou começar a mancar. Procure não sentar no corredor sendo que a cadeira ao seu lado está vaga. É um porre pedir licença pra um tiozão de bigode e regata, e ser obrigada a passar o traseiro a 20 cm da cara dele só para acomodar-se.
6 - Em pé: A técnica é evitar ao máximo qualquer contato físico com os outros usuários. Atenção aos seus braços, mãos, sacolas e afins. Tente não ficar de pé em frente à catraca, emperrando a enxurrada de pessoas com mais sacolinhas querendo adentrar, ou em pé na frente da porta de saída. É perigoso. Aliás, se você insiste em ficar na frente da saída sendo que não vai sair, é melhor que caia no asfalto mesmo.
7 - Braços levantados: Se você é homem, cuidado se estiver usando camiseta cavada. Ninguém é obrigado a apreciar os pêlos que saem desvairadamente debaixo de suas axilas. É nojento. Aliás, se você é homem, esqueça que existe esse tipo de vestuário no mundo. Agora se você é mulher e tem pêlos desvairados embaixo das axilas, compre uma gilete. Ou se jogue embaixo do ônibus quando ele passar. Já o uso de substâncias desodorantes é mais que obrigatório. É pelo bem geral da humanidade. Ônibus já polui o ar, agora imagina um ônibus catinguento.
8 - Conversas: Fale sobre o tempo, sobre o trabalho, sobre a novela. Não fale da sua vida pessoal, ou se gabe de quem comeu (ou deu) ontem à noite. Esqueça assuntos polêmicos como “A Claudinha tinha que abortar” ou "a Bispa Sônia merecia apodrecer na cadeia". As senhoras com as sacolinhas podem te atacar. Não fale sobre seu cunhado que está na cadeia, ou do furúnculo que apareceu no seu dedão. Muito menos mostre o furúnculo. Ao celular então, papo rápido. Tentar convencer a Vincislaine a sair com você dentro da linha Caxambó-Igarapé lotada não é uma boa pedida.
9 – Leitura: “Brasileirinhas Safadinhas” não é material para leitura em transporte público. E seja qual for a sua leitura, não leia em voz alta. Nem a Bíblia. (muito menos).
10 – Comportamento para com os outros: Não peça desculpa pelo incômodo que está causando a nossa viagem, mas é que você tem 6 filhos e está desempregado, precisa comprar remédios para seu furúnculo (mostrando o furúnculo), sua sogra mora com você e o cachorro pegou sarna e que Deus nos abençoe com qualquer contribuição que pudermos dar.
Seguindo essas dez regrinhas básicas, a convivência dentro de um espaço tão ameaçador como o busão torna-se aceitável, e não remete a um local propício para a prática de estudos antropológicos de civilizações primitivas.
Escrito por Sarah às 11:11
Labels: Comportamento, povão, vida urbana




